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3.4.15

Deus veio a nós!


A vinda tripla de Deus

Não somente no Novo Testamento cristão, mas também o Antigo Testamento judeu está orientado para a vinda de Deus ao seu povo, sua humanidade e sua terra. Se o povo se sente em terra estranha, abandonado por Deus e distante da terra prometida, então grita por ele, como mostram bem as lamentações bíblicas: Levanta-te, Senhor; levanta teu rosto e vem! (cf. Sl 4.6). Se o povo pressente a vinda de Deus, então deve preparar o caminho: “Levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória” (Sl 24.7). Experimenta-se a presença plena do Deus vindouro e então esse povo canta e dança diante dele, glorifica sua beleza.
Os dois Testamentos são testemunhas paralelas da esperança em Deus, assim como Israel e a Igreja são testemunhas da esperança no mundo. Nós vivemos no tempo do advento de Deus. A fé nos permite confiar em Deus e a esperança torna nossos sentidos despertos e alertas para o vindouro. Ele veio na carne, ele vem em Espírito e ele virá em glória.

Deus veio a nós em Jesus Cristo

A esperança cristã futura se fundamenta em uma lembrança histórica segura. Esta é a presencialização do Cristo de Deus, que veio ao nosso mundo. Ele faz de nossa vida a sua própria, transformando assim a terra num lugar de esperança. Tal fato diferencia a esperança cristã de todos os outros sonhos e temores futurísticos que ouvimos com frequência nos últimos dias.
Jesus Cristo se tornou extremamente próximo de mim quando procurei por Deus e não encontrei qualquer resposta. Assim, eu vim a crer em Deus por meio de Jesus Cristo. É por isso verdade quando digo: Sem Cristo, eu teria me tornado ateu. Pois partindo das experiências da história humana ou da contemplação da natureza, eu não teria a ideia que existe um Deus. Mais do que isto, não teria nunca pensado e crido que este Deus é amor e quer o nosso bem. Por causa de Cristo, comecei a crer em Deus. Dito de modo mais exato: Eu comecei a crer no Deus de Jesus Cristo. Este Deus que Jesus chamava de modo tão íntimo de Abba – Pai amado – e do qual anunciava aos pobres a chegada do reino. Sempre que penso em Cristo, sinto a proximidade de Deus e da vastidão de seu reino.
A primeira imagem pela qual fui achado por Cristo foi a imagem daquele que desesperançado, prisioneiro e torturado na cruz dos romanos, gritava por Deus. Eu me senti compreendido por ele como por um amigo que se torna partícipe em nosso destino. Cristo seguiu o caminho do sofrimento e do abandono para procurar pelas pessoas abandonadas e, assim, se tornar irmão delas. Isso me tocou de modo pessoal: Deus abandonou seu Cristo para que Ele viesse ao meu encontro no estado de abandono e me achasse. Descobri, assim, em seu destino, algo que ainda não tinha trabalhado em meu próprio destino. Algo de sua presença em minha própria vida.
Cristo socorre, Cristo salva. Ele não socorre, todavia, por meio de sua supremacia, mas sim, por sua solidariedade conosco em nossa impotência. “Pelas suas pisaduras, fomos sarados” é o que diz o profeta Isaías, referindo-se ao servo sofredor de Deus, o qual deverá redimir o mundo (Is 53.5).
“Somente o Deus que sofre pode socorrer” escreveu Dietrich Bonhoeffer na prisão. Deus socorre – primeiro e sempre – por meio de sua compaixão: “No mais profundo abismo, lá estás também” (Sl 139.8).

Deus veio a nós em Espírito

A esperança cristã do futuro se fundamenta na contemplação de Cristo e na experiência do Espírito vivificante. Nós não apenas relembramos a história de Cristo e esperamos pelo futuro de Deus. Nós já experimentamos também hoje “os poderes do mundo vindouro” (Hb 6.5). Essas são as “energias vitais” do Espírito Santo.
Mas quem é o Espírito Santo? O Espírito Santo é o Espírito da vida que vitaliza todas as coisas por ele tocadas. Ele é presença vital de Deus no mundo. O dom da presença deste Espírito de Deus é o que de maior e mais maravilhoso pode ser experimentado por todas as formas de vida, tanto em âmbito pessoal quanto comunitário. No Espírito Santo, não está presente um tipo qualquer de espírito entre tantos outros, mas Deus mesmo. O Deus vivo que é criador, libertador e salvador.
Onde está o Espírito, ali está Deus de modo especialmente presente. Não em uma forma de onipresença, mas na forma de automanifestação. E onde Deus se manifesta, ali Ele partilha de si mesmo. As energias criativas de sua vida eterna abundam e perpassam nossa vida mortal e a fazem, desde dentro, plenamente viva. Onde quer que sintamos o Espírito de Deus, ali nós experimentamos Deus. Como? Por meio de nossa vida vivida. Nós experimentamos a vida curada e redimida, amada e amável. Não experimentamos a vida apenas como uma nova espiritualidade do coração ou nova teologia da cabeça, mas com todos os nossos sentidos, como uma nova vitalidade da vida. Nós sentimos e degustamos, ouvimos, cheiramos e vemos nossa vida em Deus e Deus em nossa vida, assim como é dito em 1 João 1.1-2:
O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nosso próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna...).
Existem muitos nomes para este Espírito da vida porque existem variadas experiências de vida. Para mim, são os mais lindos os nomes de consolador e fonte de vida.
Na comunhão com Cristo, experimentamos as forças vitais do Espírito divino. Quem se tornou triste e sem participação em nada na vida, quem não sente mais em si qualquer vitalidade, deve se votar para o Cristo e experimentará a nova vitalidade do Espírito de Deus. A meu ver, esta constitui a nova sensualidade (referente aos sentidos) da vida e o vasto âmbito vital de Deus.
Assim como na experiência de uma grande tristeza nossos sentidos se apagam e não podemos mais ver qualquer cor, ouvir nenhum tom e perceber o paladar, parecendo mortos-vivos, assim também se abrem os nossos sentidos novamente quando respiramos o amor de Deus. Nós vemos de novo este mundo multicolorido, nós ouvimos novamente melodias, recuperamos nosso paladar e todos os sentimentos. Somos tomados por uma grande aceitação da vida, aceitação do Espírito vital divino.
Para o desenvolvimento desta nova vida, precisamos de um lugar espaçoso. ”Tu me pões num lugar espaçoso”. Este lugar espaçoso é o presente do Deus infinito, o qual cerca a nossa vida finita (Sl 139.5). A presença divina nos cerca por todos os lados. Isso nos permite desenvolver nossa vida finita para todos os lados. Nós podemos nos movimentar em Deus e Deus morar em nós. Deus não é somente uma pessoa com a qual podemos falar, mas também o espaço no qual podemos desenvolver nossas vidas. Segundo a tradição judaica, um dos nomes de Deus é Makom (espaço). Nós, seres humanos, damo-nos espaço mutuamente sempre que nos abrimos em amor e amizade mútuos e permitimos que os outros seres humanos tomem parte em nossa vida. Sem tal espaço livre na vida comunitária, não existe qualquer liberdade pessoal. O amor dá espaço e tempo para a liberdade. Onde quer que nós experimentemos este espaço livre, ai nós experimentamos a presença de Deus em nós.

Deus veio a nós em Glória

O Deus que nos foi mostrado por Cristo é o “Deus da Esperança”, como Paulo o chama em Romanos 15.13. Deus não é o eterno que está aqui, esteve aqui e aqui estará, mas o Deus que “vem” (Ap 1.4). Ele vem ao nosso encontro desde o seu futuro. Por isso é que o abrangente horizonte do futuro não é algo que se acrescente ao Cristianismo, mas seu elemento constitutivo. Crer significa viver na presença do Cristo ressuscitado e se deixar orientar pelo seu reino vindouro “assim na terra como no céu”. Nós vivemos na expectativa de sua vinda. Nós não aguardamos o seu “retorno”, mas vivemos cada dia na luz de sua vinda. Sobre nós brilha a estrela da promessa. A promessa de Deus é como a aurora que anuncia a chegada de um novo dia: o dia de Deus. “Vai alta a noite, e vem chegando o dia”, assim descreve Paulo a sensação cristã do tempo (Rm 13.12).
Que futuro pode preencher as promessas de Deus, nossas esperanças e as expectativas da terra? Deus vem para morar na terra com os seres humanos. A totalidade da criação se tornará, então, seu templo. O apocalipse descreve isto por meio da imagem da “Jerusalém divina”, a qual desce sobre a terra. Por conta dessa Schechinah de Deus, tudo precisa ser recriado e preparado. Então serão enxugadas todas as lágrimas, o sofrimento e pranto vão passar e a morte não existirá mais (Ap 21.5). Quando o divino estiver em tudo o que é terreno e tudo o que é terreno estiver em todo o divino, então a beleza divina fará todas as coisas resplandecerem. Esta é a plenificação da esperança histórica da humanidade e a consumação da criação. Em seguida, estará tudo criado como foi no princípio: a vida e a luz, as plantas e os animais e também os seres humanos.
Segundo 2 Pedro 3.12, devemos esperar e apressar o futuro de Deus. Isso soa contraditório, mas não o é. Vamos traduzi-lo em nossa experiência e em nossa língua:
Aguardar: é não se conformar às condições de injustiça e não reconhecer as forças daquilo que é factual, pois bem se sabe que alguma coisa melhor pode acontecer e algo diferente está por vir. Aguardar significa nunca se resignar, nem entregar-se a si mesmo. Poder aguardar – isto é uma arte da esperança. Paciência é a virtude da esperança. Aguardar significa viver em ansiosa atenção até a chegada da hora da consumação final. Poder aguardar é também fidelidade ao futuro prometido. “Senhor, Deus nosso, outros senhores têm tido domínio sobre nós; mas graças a ti somente é que louvamos o teu nome”, assim disse o povo de Deus prisioneiro quando do cativeiro babilônico (Is 26.13). E ele sobreviveu. Não existe nenhuma teologia da libertação sem esta teologia do cativeiro, como Rubem Alves notou bem.
Apressar: Aqui, o que se tem em mente é a superação da realidade presente e a antecipação do futuro do novo mundo de Deus, a cada passo e em cada ato nosso. Por meio de cada ato de justiça, preparamos o caminho da nova terra, onde reina a justiça. Faz-se justiça a quem sofre violência e brilha, então, o futuro de Deus em seu mundo. Engajamos-nos em favor de “órfãos e viúvas” e surge, então, um pouco mais de verdade em nosso mundo.
Conforme nós exploramos suas riquezas e forças vitais, a Terra geme com a violência e a injustiça. Ela aguarda por seu direito. Nós nos “apressamos” ao encontro do futuro de Deus quando antecipamos aquela justiça por meio da qual a “nova terra” deve surgir.
Aguardar e apressar: isto significa resistir e antecipar. Com isso, santificamos a vida e nos tornamos seres seguros do futuro de Deus. 

Fonte: Vida, esperança e justiça de Jürgen Moltmann. Editeo, 2008, pp. 12 - 17.




28.11.12

O ambiente humano

por Marina Silva


O Brasil passou a última semana de janeiro vendo escombros em reportagens televisivas sobre o resgate das vítimas do desabamento dos três prédios no centro da cidade do Rio de Janeiro. Além de sofrermos com as famílias e torcermos por um final feliz para cada espera, perguntamos, em escala nacional, qual seria a causa da tragédia. Aos poucos a causa foi ficando clara, pois nenhum fenômeno natural estava em sua raiz. Não foi desabamento por chuvas nem movimento de terras subterrâneas. O colapso da estrutura de um dos prédios, provocado por falha humana, era a explicação.

No mesmo período vimos outras imagens de escombros. Dessa vez, nas notícias sobre a ação do governo do estado de São Paulo na desocupação de áreas pertencentes à massa falida da empresa do Grupo Naji Nahas, em Pinheirinho, São José dos Campos. Seis mil pessoas foram desalojadas pela polícia. Máquinas destruíram casas sem que seus moradores pudessem retirar delas um garfo sequer, deixando atrás de si destruição, desolamento, pedaços estraçalhados de bens. De novo a causa não foi ventania, furacão ou outra razão natural, mas a atuação de instituições oficiais.
De tais escombros se eleva uma mensagem, uma reflexão. O Salmo 115.16 diz que Deus nos deu este planeta. No-lo deu pleno de vida (Gn 1.22) e de recursos para satisfazer nossas necessidades (Gn 1.29-30) e encarregou-nos de cuidar dele (Gn 2.15). Fez-nos corpo e espírito (Gn 2.7), portanto, com capacidade criativa, que nos permite criar sobre e com a criação. Assim, temos no planeta o ambiente natural e aquele que brotou dos artifícios humanos. Estes os cientistas chamam de cultura material. Quanto a eles, temos a seguinte recomendação: “Quando edificares uma casa nova, farás um parapeito, no eirado, para que não ponhas culpa de sangue na tua casa, se alguém de algum modo cair dela” (Dt 22.8).
Os primeiros escombros revelam nosso pouco cuidado com o ambiente que produzimos, com as normas técnicas, com a segurança, com a durabilidade do que fazemos. Os segundos, denunciam o pouco cuidado com as pessoas, com seus direitos, com sua felicidade. Falhamos na ética do cuidado na criação de nosso ambiente humano.
Foi um mau começo para o país que vai sediar no Rio de Janeiro, entre 13 e 24 de junho de 2012, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, apelidada de “Rio + 20”. Esse será um grande evento para se falar sobre o cuidado com o planeta, com os recursos naturais e com as pessoas, e para o qual se espera a participação do governo de mais de 100 países, além de membros da sociedade civil. Serão debatidos temas ambientais, como segurança climática, segurança energética, biodiversidade, cidades, água e oceanos. E também temas de natureza técnico-econômica, tais como desenvolvimento sustentável, produção e consumo sustentável, inovação tecnológica para sustentabilidade. O cuidado com as pessoas será expresso em temas como, segurança alimentar, migrações, trabalho decente e erradicação da pobreza.
A ONU se move por valores da civilização humana, por princípios erigidos na convivência laica. Qual não será a responsabilidade dos cristãos, que têm como guia a Bíblia, na qual passagens inteiras nos admoestam e educam quanto ao cuidado? Tomemos esta como exemplo: “Acaso não vos basta pastar os bons pastos, senão que pisais o resto de vossos pastos aos vossos pés? E não vos basta beber as águas claras, senão que sujais o resto com os vossos pés?” (Ez 34.18).
Marina Silva • é professora de história e ex-senadora pelo PV-AC.


Fonte: Revista Ultimato Março-Abril de 2012.

Crise civilizatória


por Marina Silva
 
Estive em Lisboa em outubro de 2011, a convite da Fundação Calouste Gulbenkian, para participar do ciclo de palestras chamado “Ambiente. Por que ler os clássicos?”. Coube-me comentar o texto “Nosso futuro comum”, também chamado Relatório Brundtland, encomendado pela ONU à ex-primeira ministra da Noruega, Gro Brundtland, em 1984. O estudo, concluído em 1987, inspirou vários desdobramentos na governança ambiental global, além de eventos como a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que conhecemos também como Cúpula da Terra ou Rio 92.
 
Passados 24 anos, e às vésperas da Conferência Rio + 20, que será realizada em junho de 2012, vejo, com certa tristeza, que foram muitos os descaminhos. Os alertas e as recomendações feitos no relatório tiveram efeitos, mas não suficientes para que, na primeira década do século seguinte à publicação, estivéssemos em situação menos complicada.
 
Temos um mundo convulso em crises superpostas e uma avaliação equivocada na hierarquização dessas crises. A crise econômica arrasta o sistema financeiro mundial para o colapso. A crise social nos exibe rostos magros de 2 bilhões de pessoas com fome. A crise política, nascida do descolamento entre a representação democrática dos povos e a atuação parlamentar de características corporativistas, denuncia que valores e significados estão sendo perigosamente postos de lado na condução dos interesses públicos. E a crise ambiental, resultante de um modelo de desenvolvimento em que o crescimento econômico não quer ter limites e espolia a base natural de todos os ecossistemas da terra, pode levar à esterilização do planeta pelo aquecimento climático a uma temperatura incompatível com a existência da vida.
 
A humanidade se dedica alegremente ao consumismo, às preocupações de curto prazo, sem pensar nas condições que as futuras gerações terão para viver. 
 
Isso nos leva a identificar outra crise: a da utopia, do sonho de solidariedade, de fraternidade, do planeta pleno de vida. Em Gênesis 1.22 o ato criativo de Deus significa um planeta cheio de vida na terra, nas águas e no ar, com plantas e animais, pássaros e peixes, e o ser humano por fiel guardião de tudo isso. No ano de 2012 da era cristã, essa vida está também ameaçada em todos os quadrantes da terra. Nossos processos institucionais e políticos não zelam pela democracia. Nossos processos produtivos desconhecem a inteligência da engenharia sistêmica de Deus e exploram os bens materiais do planeta até seu esgotamento, gerando poluição e outras disfuncionalidades nos ecossistemas. O fruto do trabalho de nossas mãos no campo visa o lucro, é mal distribuído e não chega às bocas famintas nos países pobres. Nossa infraestrutura cara e mal planejada é ambientalmente inadequada, além de injustiçar os povos que sofrem os impactos sem ter os benefícios. Nosso gigantesco sistema financeiro privatiza os lucros, mas impõe à humanidade os prejuízos de suas operações, resultando em perda de milhões de empregos.
 
As múltiplas crises que constituem a crise civilizatória que vivenciamos exigem de homens e mulheres sentido de urgência e mobilização para o imperativo ético da mudança de atitude que precisaremos ter face à destruição da vida abundante com que Deus agraciou o planeta. Para isso é importante propiciar o necessário encontro entre política e ética, economia e ecologia e, para os que creem no propósito restaurador da obra de Deus, do homem com Deus, consigo mesmo, com os outros homens e com a criação.
 
• Marina Silva é professora de história e ex-senadora pelo PV-AC.

Fonte: Revista Ultimato Janeiro-Fevereiro 2012.

23.2.12

Sentido de urgência


por Marina Silva 
Em maio deste ano a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei (PLC 30/2011) que tem como objetivo modificar o Código Florestal. Sem ouvir de forma adequada a população e sem considerar as contribuições da ciência, aproximadamente 80% dos deputados votaram em favor da proposta. Deram um sim ao retrocesso na legislação ambiental de nosso país; à retirada da proteção às beiras de rios, permitindo o desmatamento e assoreamento dos cursos d’água; às encostas de morros, pois com a retirada de sua vegetação elas podem desabar sobre estradas e casas; aos topos de morros, que podem sofrer o mesmo efeito; aos mangues, que podem secar e desaparecer. Um sim ao perdão a desmatadores que desrespeitaram as leis; ao descumprimento da função socioambiental das propriedades; ao agravamento das mudanças climáticas. 
Após a votação, o instituto de pesquisa Datafolha mostrou que 85% da população se declarou contrária ao retrocesso e às outras consequências mencionadas. Ficou patente que estamos vivendo um descolamento entre os mandatos parlamentares e o compromisso de ser representação política. 
O projeto de lei agora está no Senado. Mais do que nunca a natureza geme e sofre esperando a revelação dos filhos de Deus para sua libertação (Rm 8.19-23). A esperança é que a situação possa ser modificada. Os senadores precisam saber que é muito importante proteger as florestas e os rios, pois são fundamentais para a qualidade de vida dos brasileiros. Dependemos deles para beber água, para cultivar os alimentos, para evitar as enchentes e os desabamentos, para fortalecer e fertilizar o solo. Cuidar das nossas florestas e rios é produzir dentro da perspectiva do desenvolvimento sustentável. Esta é uma visão que considera as necessidades presentes e também as necessidades das futuras gerações. O legado de nosso tempo não pode ser a degradação, a poluição, o esgotamento, as tragédias eminentes. Isso não condiz com a visão de mordomia da criação, como afirma a Palavra de Deus. 
Em conjunto com algumas pessoas e mais de cem organizações participei da criação e participo da atuação do Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável. Vamos apresentar um abaixo-assinado aos senadores pontuando as questões levantadas neste texto. É importante que a opinião dos brasileiros seja ouvida no Congresso, e é fundamental que ao colocar o nome no abaixo-assinado cada um o faça como sujeito de sua história, saindo da posição de espectador da política e assumindo o papel de agente responsável pelos rumos do país. A menos de um ano da realização no Brasil da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, a chamada “Rio + 20”, é preciso impedir que o país cometa uma agressão contra o marco legal que a duras penas conquistou ao longo dos últimos anos e contra as bases naturais de seu próprio desenvolvimento.
Para se informar e participar do abaixo-assinado e dar aos senadores o recado da população -- a fim de que entendam o sentido da responsabilidade que precisam ter e não se afastem do fato de que foram eleitos para representar e não para substituir as pessoas, acesse: www.florestafazadiferenca.org.br.
• Marina Silva é professora de história e ex-senadora pelo PV-AC.

Fonte: Revista Ultimato Novembro-Dezembro de 2011.

13.11.11

A solução pela raiz

por Marina Silva

As circunstâncias históricas no capítulo 11 do livro do profeta Isaías mostram-nos que aquela era uma época de degradação social e espiritual; um mundo à beira do abismo em todos os aspectos. Uma árvore cortada é a imagem metafórica usada pelo profeta para expressar a desoladora devastação daquele tempo. Porém, nessa mesma árvore cortada, pela misericórdia de Deus, havia a possibilidade de prosperar um pequeno broto, originado na força de suas raízes. Era a raiz de Jessé, um menino que traria renovo para o mundo degradado.

O profeta faz uma analogia entre os processos biológicos de renovação das plantas e a oportunidade de resgate que Deus oferece à Criação como um todo.

Embora Isaías tenha vivido quase oito séculos antes de Cristo, o capítulo é oportuno também para ilustrar as consequências da queda na parte natural da Criação, igualmente carente de resgate e restauração.

Os recursos naturais do planeta já foram degradados a ponto de gerar um “déficit” quase irrecuperável. Estamos “no vermelho” em 30%, com a capacidade de reposição por meios naturais esgotada. É como se avançássemos em 30% do valor de nossos rendimentos mensais no uso do cheque especial. Essa é uma situação em que a árvore já foi cortada, o tronco está morrendo e só a misericórdia de Deus pode oferecer nova oportunidade um renovo para os seres humanos e para os processos orgânicos e mecânicos do planeta.

Lembremo-nos da exploração de petróleo sem os cuidados ambientais, no Golfo do México; dos desastres com energia nuclear em Chernobyl e no Japão; da destruição de rios, como o Tietê; da desertificação em muitas áreas, pela ausência de chuvas derivada da retirada das árvores. Pensemos na atmosfera irrespirável pelas emissões resultantes dos processos de transformação industrial. A lista é infindável e atinge a todos os sistemas existentes no planeta. Como restaurar o que destruímos? Como caminhar em direção às promessas de Isaías 11.6-9?

Responderemos a essas perguntas quando formos capazes de fazê-las sinceramente. Veremos o que é possível conseguir quando nos dispusermos ao resgate, à restauração de nossa vida espiritual de foma integral com Deus e à restauração de tudo o que ele criou, da forma como criou e da maneira como, a cada ato criativo, certificava-se de que tudo tinha ficado muito bom (Gn 1.3-31). Deus resgatou e restaurou não só no plano espiritual, mas também no campo físico (duro e extenuante), tornando-se homem, deixando a condição de Verbo glorioso e fazendo-se carne, como profetizou Isaías.

É tempo de trabalhar para reverter tanto a devastação das almas quanto a do planeta. É preciso sair do vermelho. Dispormo-nos ao trabalho, a exemplo do que fez Jesus. Uma grande oportunidade para nós não só como brasileiros, mas como cidadãos do planeta é a Rio+20 Conferência das Nações Unidas em Desenvolvimento Sustentável, que será realizada em junho de 2012. Haverá, na ocasião, a oportunidade de pensarmos e propormos soluções para os temas econômicos, sociais e de governança. Alguns deles são: como produzir respeitando os ciclos de reposição da natureza; como organizar politicamente nossa vida na casa comum que Deus nos deu; como cuidar dos órfãos e das viúvas, que na Bíblia representam todos os desvalidos. Estes são temas com potencialidade fundante de toda uma nova civilização, de acordo com o estado de coisas em plenitude que Deus reafirma como parte de sua essência em 1 Coríntios 10.26.


Marina Silva é professora de história e ex-senadora pelo PV-AC

Fonte: Revista Ultimato Setembro-Outubro de 2011.

7.8.11

Ainda sem cuidar

por Marina Silva

Estamos vivendo um momento importante na história de nosso país. Uma das principais leis de nosso ordenamento jurídico, o Código Florestal, está em discussão no Congresso Nacional.

Este momento enseja a expressão de cosmovisões de todos os envolvidos no debate e é impressionante o que vem à luz. Embora esteja claro em Gênesis 2.15 que o ser humano foi autorizado a lavrar e cuidar do jardim onde foi posto, em geral só se dá ouvidos para o lavrar. É como se fosse uma herança cultural pela metade. Desenvolvemos o domínio sem o cuidado.

Na maior parte do Brasil o mesmo modelo de cultivo da terra vem sendo usado desde o descobrimento. São 500 anos de uma tecnologia muito baixa, que significa a derrubada, a queima e a exploração até que o solo se esgote. Esse modelo tem se agravado devido à contaminação das águas com agrotóxicos e às emissões de gases de efeito estufa.

A remoção de vegetação das encostas, topo de morros e margens de rios é feita sem nenhum senso de proteção. O resultado são rios assoreados, encostas que desabam sobre casas, plantações e estradas, e muitas vidas perdidas a cada ano. Além da alteração no regime das chuvas, pois as florestas têm um papel fundamental no equilíbrio climático.

O Código Florestal não diz respeito apenas às áreas rurais. Há áreas de proteção permanente (APPs) também em regiões urbanas. Ainda temos na memória as cenas de destruição e dor do deslizamento do Morro do Bumba, em Niterói, e da pousada em Angra dos Reis, ou das enchentes em São Paulo, onde as calhas dos rios imprensadas por construções em local inadequado transbordaram e trouxeram tantas perdas para quem já tem tão pouco.

Se o texto aprovado na Câmara, que seguiu para debate no Senado, ficar como está, vai permitir que toda essa situação se agrave muito. O projeto anistia quem desmatou ilegalmente as áreas de florestas que deveriam, pela sua importância ecológica para toda a sociedade, ser preservadas. Beneficia especialmente os grandes produtores, desobrigando-os da recomposição da reserva legal e da APP, e cria condições para que novos desmatamentos possam acontecer e sejam legalizados.

Com isso, todos os esforços feitos pelo poder público e pela sociedade para barrar a destruição de nossos ecossistemas naturais caem por terra. Esse retrocesso está camuflado no texto, em uma redação capciosa, de modo que somente advogados especialistas na questão ambiental conseguem compreender o verdadeiro objetivo da lei, que é isentar o setor rural e outros setores econômicos da obrigação constitucional de preservar o meio ambiente e conservar nossas florestas para as atuais e futuras gerações.

Há parlamentares que não comungam da cosmovisão cristã, no entanto orientaram seu voto pelo princípio de usar com cuidado. Causa estranheza que aqueles que creem no dever de respeitar a terra porque ela pertence a Deus -- como está escrito em Levítico 25.23 -- tenham, com poucas exceções, votado sim a esse texto, que é alinhado com os interesses de setores resistentes a entender que sem a proteção do meio ambiente não haverá futuro para o Brasil.

A Câmara dos Deputados votou essa importante lei sem a dimensão do cuidado, fazendo o país retroagir ao modelo agrícola do século 19, quando tínhamos pouca informação científica sobre o regime das águas, as necessidades do solo, a engenharia das chuvas, os efeitos dos gases poluentes no clima.

Tomara que o tempo de discussão no Senado possa recolocar nosso país no século 21 e que a voz do Senhor seja ouvida na terra.

Marina Silva é professora de história e ex-senadora pelo PV-AC.

Fonte: revista Ultimato julho-agosto de 2011.

19.7.11

Babel de ilusões

por Marina Silva

O mundo assiste mais uma vez a um grave acidente nuclear. As consequências não podem ainda ser mensuradas e estão longe de terminar. Desta vez a crise é nos complexos de Fukushima e Onagawa, no Japão, país que sofreu, em março deste ano, um grande terremoto e um subsequente tsunami. Não podemos, a partir de eventos como esse, deixar de aprender algumas lições.

Os riscos envolvidos no funcionamento das usinas nucleares, no armazenamento dos resíduos radioativos e as consequências da radiação para o meio ambiente e para a saúde das pessoas são desconhecidos da sociedade. Falta transparência, acesso à informação e disseminação de conhecimentos que acerca da atividade. Eisaku Sato, ex-prefeito de Fukushima, disse para um jornal francês que o grande problema da energia nuclear é a falta de controle democrático dos processos de decisão governamental. Algo que ocorre em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Em decorrência do desastre japonês, ficamos sabendo pela imprensa que a usina de Angra 2, por exemplo, em funcionamento desde 2000, não tem licença operacional definitiva até hoje -- um documento certificando que as condições de segurança estão sendo atendidas. Descobrimos que há quatro reatores nucleares, que não são monitorados, instalados em três universidades. Por fim, que dos 470 milhões de reais destinados à manutenção das instalações das usinas de Angra 1 e 2, apenas 35% foram aplicados entre 2003 e 2010.

Sempre fui contra a produção de energia nuclear: uma tecnologia cara e altamente danosa. Até hoje não existe tratamento seguro dos resíduos nucleares, cujos efeitos contaminantes podem durar mais de cinco séculos. Uma herança maldita deixada para as futuras gerações. Em artigo recente afirmei que a questão não está só no mérito da tecnologia nuclear, mas no seu entorno, naquilo que o aprendizado das últimas décadas nos ensinou, ou seja, é mais importante o olhar abrangente, para as cadeias de causas e consequências, do que para um ponto fixo.

Diferente do Japão, o Brasil tem opções energéticas mais eficientes e limpas: energia eólica, hidráulica, solar e de biomassa. Ainda assim, setores do governo defendem a instalação de dezenas de usinas nucleares no país nos próximos 50 anos. Políticas como essa não podem passar ao largo da sociedade. Tenho defendido a realização de um plebiscito, precedido de um amplo e profundo debate, para que as pessoas sejam esclarecidas e possam decidir pela instalação ou não.

Talvez um dos grandes ensinamentos a tirar de toda essa catástrofe seja o da necessidade de nos reconectar com a nossa fragilidade, percebendo como somos dependentes de Deus, uns dos outros e da natureza. Somos seres que, não por acaso, chegamos apenas a ser potentes, cientes e presentes, e essa graça nos basta. A ilusão do controle revela o quão desmesurado é o apego à obra de nossas mãos. Pois cria em nós uma espécie de negação da realidade, num círculo vicioso que nos condena a continuar construindo nossa Babel de ilusões: onipotência, onisciência e onipresença -- e os saltos tecnológicos lhes emprestam contornos de realidade.

Que o sábio e atualíssimo ensinamento paulino em Romanos 12.2, que diz que não devemos nos conformar com este mundo, nos mova a uma renovação do sentir para melhor entender, do entender para melhor pensar, do pensar para melhor agir e do agir para melhor ser.

Vamos iniciar esse debate em nossas comunidades cristãs, em nossos locais de moradia e de trabalho, como pessoas com dupla cidadania, que desejam ardentemente que Deus reine nos céus e também aqui, sobretudo no lugar em que temos mais dificuldade de deixá-lo reinar: nas obras de nossas mãos.

Fonte: Revista Ultimato Maio-Junho de 2011.

Marina Silva é professora de história e ex-senadora pelo PV-AC.

10.7.11

Conhecendo Deus na criação

por Marina Silva

Vejo a revista Ultimato como um projeto editorial que cultiva um profundo respeito pela diversidade de visões doutrinárias que povoa o universo religioso cristão. Tal característica, que admiro, me faz sentir honrada em, daqui por diante, ocupar regularmente uma página desse veículo.

Não posso deixar de registrar também a alegria de compor um grupo de articulistas com elevada estatura intelectual, como a que aparece nas páginas de cada nova edição.

Minha contribuição à Ultimato será feita no espaço das relações do ser humano com a natureza. Uma temática que transita em contexto complexo, pois a cultura material produzida por nossa civilização, até o momento presente, vai dos artefatos da nanotecnologia às grandes hidrelétricas e plataformas de extração de petróleo. As atividades humanas vão do cultivo agrícola braçal em remotos sertões à criação de sistemas cibernéticos de comunicação de dados em escritórios sofisticados de grandes corporações em centros financeiros mundiais. E nossa produção simbólica se estende de uma simples canção de ninar a tratados de física quântica, astrofísica etc.

É um universo gigantesco resultante de um processo histórico de milênios, em que podemos observar como o ser humano se comportou em seu ambiente. Como extraiu recursos naturais, como os processou, que resíduos gerou e como lhes deu uma destinação final.

Nós, cristãos, relevante parte da população humana no planeta, temos em nosso livro sagrado toda uma orientação para nos conduzirmos, pois acreditamos que Deus deixou-nos orientações claras sobre conceitos e responsabilidades para com a terra, a casa que nos deu para morar (Sl 115.6).

A escritora cristã Landa Cope, em seu livro “Modelo Social do Antigo Testamento”, diz que podemos conhecer Deus pelas informações contidas na criação, na história e em sua Palavra. A mesma autora afirma que o mundo material é regido por Deus por meio de leis fixas.

Essas duas afirmações são base para interessantes reflexões sobre a forma como os cristãos pensam -- ou não pensam -- as questões ambientais.

A maioria de nós ainda tem dificuldade de servir, honrar e conhecer Deus na criação. No entanto, o primeiro livro da Bíblia, o livro de Gênesis, trata das origens, de como cada coisa foi criada, como tudo que antecedeu a criação do homem veio numa sequência lógica para sustentar-lhe a vida e, numa reciprocidade responsável, ser cuidado por ele.
A ideia de que o mundo material é governado por Deus ocorre pouco aos cristãos, pois não há entre nós a tradição de buscar conhecer as Leis de Deus para o mundo e muito menos de ficarmos atentos para não transgredi-las. As ciências da natureza são uma atividade secular que geralmente não chama a atenção dos cristãos, exceto se forem profissionais dessa área. Muitas vezes há até certa briga com a ciência, como se essa fosse uma atividade ateia que busca se opor ao teísmo. Como cristãos, acreditamos que a ciência descobre a engenhosa graça da inteligência de Deus e que as chamadas leis da natureza são regras que organizaram o mundo sucedâneo ao estado caótico da terra que era “sem forma e vazia” (Gn 1.2).

Convido todos os leitores para uma jornada de reflexão sobre a percepção da nossa responsabilidade como cristãos no que tange às demais formas de existência e de vida em nosso planeta.


Fonte: Revista Ultimato Março-Abril.

Marina Silva é professora de história e ex-senadora pelo PV-AC.

3.7.11

O suicídio ecológico contemporâneo

por René Padilla

Deus deu ao ser humano a vocação de exercer domínio sobre a terra. Dessa forma, o Criador do universo quis compartilhar sua soberania com criaturas que são sua imagem e semelhança: feitas do pó da terra, mas chamadas a administrar a terra como mordomos da criação de Deus, em liberdade e obediência.

A terrível crise ecológica que hoje afeta nosso planeta mostra até que ponto a humanidade abusou da autoridade que Deus lhe delegou sobre a criação. Em 1931, o filósofo inglês Bertrand Russell escreveu: “Para o homem moderno, o meio ambiente físico é meramente matéria-prima, uma oportunidade para a manipulação. É possível que Deus tenha feito o mundo, mas isso não é razão para nos abstermos de restaurá-lo”. Desde então, as consequências negativas do uso irresponsável dos recursos naturais aumentou de tal maneira que não é exagero afirmar que estamos avançando rumo a um suicídio global.

Uma manifestação da gravidade do atual problema ecológico é a mudança climática que o mundo todo está vivenciando. Segundo o relatório AR4, publicado em 29 de junho de 2007 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), estabelecido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio-ambiente (PNUMA) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), “O aquecimento do sistema climático é inequívoco, como é agora evidente pelas observações do aumento das temperaturas médias do ar e do oceano, de derretimento generalizado de neve e gelo, e de uma elevação do nível do mar”. Os dez anos mais quentes registrados desde 1990 ocorreram a partir de 1997, e calcula-se que, no mundo todo, aproximadamente 150 mil pessoas morrem a cada ano por causa do impacto do aquecimento climático na saúde humana. Segundo o Greenpeace, a extensão mundial de terras afetadas pela seca no mundo duplicou entre 1970 e o início da década de 2000.

Os relatórios especializados explicam cientificamente as notícias que escutamos com frequência ou aquilo que vivenciamos por causa dos desastres naturais causados pelo aquecimento climático. Tempestades, inundações e secas terríveis, ondas intensas de calor e frio são comuns no mundo todo. Os efeitos da mudança climática nos últimos anos foram devastadores.

Segundo o relatório do IPCC, esse aquecimento provavelmente é causado pela produção de gases como o dióxido de carbono, produzidos por certas atividades humanas. Embora os países ricos sejam especialmente responsáveis por essa produção, a situação se complica mais com o aumento da emissão de gases nos países em desenvolvimento, como China, Índia e Brasil, onde a emissão duplicou nos últimos vinte anos.

Em última instância, o devastador fenômeno da mudança climática resulta do que o sociólogo Leslie Sklair denomina “a cultura-ideologia do consumismo”, que está no centro do atual sistema econômico global e de sua obsessão com o crescimento econômico. A ditadura do consumismo estabelece que o sentido da vida depende da posse pessoal de produtos tecnológicos que supostamente melhoram o nível de vida. O duplo desafio que essa sociedade consumista apresenta aos cristãos é, em primeiro lugar, dar ouvido à palavra de Jesus: “A vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” (Lc 12.15). Em segundo lugar, recuperar a prática da mordomia da criação estabelecida por Deus no princípio.

Traduzido por Wagner Guimarães

Fonte: Revista Ultimato Janeiro - Fevereiro de 2011.

27.6.11

Mordomia responsável

por René Padilla

Nós, evangélicos em geral, não temos dado ao tema do meio ambiente a devida atenção. É urgente abordá-lo sob uma perspectiva bíblica e voltada para o cumprimento da missão a que Deus nos chamou como mordomos de sua criação em um mundo onde reinam dois males intimamente ligados entre si: o abuso dos recursos da criação e a injustiça social.

A afirmação com que a Bíblia se inicia não dá lugar a dúvidas: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Na terra que surge do nada pelo poder de sua Palavra, Deus cria, em primeiro lugar, o cenário para a vida humana. Depois, sobre este cenário, coloca o homem e a mulher, criados à sua imagem e semelhança, e lhes comissiona o mandato cultural: “Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a” (Gn 1.28a).

Como no caso da existência de Deus, a revelação bíblica considera indiscutível o fato de que Deus delegou aos seres humanos um papel único na criação. O texto mostra claramente que a criação da humanidade é um ato singular que se distingue de todos os demais atos da criação de Deus. Com efeito, no grande poema de Gênesis 1, a humanidade é a coroação de toda a obra criadora de Deus. Esta conclusão é reforçada pela referência à humanidade como “imagem e semelhança de Deus”. O que significa isto? Em que sentido se pode dizer que a humanidade se parece com Deus?

A variedade de interpretações que se tem sugerido não deixa espaço para o dogmatismo sobre o tema, mas parece que a interpretação mais apropriada é a que leva em conta o significado das imagens em tempos antigos no Oriente Médio. De acordo com a ideologia real, aceita amplamente nessa região geográfica e especialmente no Egito, o rei era considerado como a imagem de Deus: representava a Deus diante de seus súditos. Ao mesmo tempo, a imagem do rei o representava perante seus súditos em territórios conquistados. Aparentemente, estas ideias proveem uma boa base histórica para se pensar que a referência à humanidade como a imagem de Deus significa que a humanidade representa a Deus e foi revestida com sua autoridade na criação. Esse é o fundamento da dignidade de ‘todo’ ser humano, sem exceção.

Esta interpretação se ajusta muito bem à tarefa específica que Deus confia à humanidade segundo Gênesis 1.28. À humanidade, por ser a imagem de Deus -- e a sua representante na criação --, é delegada a autoridade de Deus: o poder de procriar e de submeter a terra. Além da procriação, a vocação humana fundamental é o controle da ordem do que foi criado em cumprimento ao “mandato cultural” -- cumprimento por meio do qual a humanidade manifesta que é a imagem de Deus na criação. Esta é a base da mordomia responsável no uso e cuidado dos recursos naturais e também para o desenvolvimento científico e tecnológico, não em função do crescimento econômico, mas sim como o meio de cumprir o propósito de Deus para sua criação e, assim, dar glória ao Criador.

Há quem afirme que a origem da situação atual, marcada por uma profunda crise ecológica, está na tradição judaico-cristã, segundo a qual Deus destinou ao ser humano a tarefa de submeter a terra. A exploração destrutiva da natureza, se diz, é o resultado da arrogância humana com respeito à natureza. No entanto, não há nada na tradição judaico-cristã que sugira que o domínio que a humanidade é chamada a exercer sobre a terra tem de ser exercido independente de Deus e da criação, como se a humanidade fosse dona, e não apenas um mordomo da criação. Ao contrário, a raça humana é concebida como feita do “pó da terra”, formada por criaturas terrestres que dependem do fruto da terra para sua manutenção (Gn 1.29-30) e em total dependência do Deus de quem procede a vida (ver Gn 2.7).

Em síntese, Deus, o Criador do universo, escolheu compartilhar sua soberania com criaturas que são sua imagem e semelhança, mas foram feitas do pó da terra e têm a vocação de reger sobre a terra como colaboradores de Deus em liberdade e obediência. A recuperação dessa vocação é um aspecto essencial de nossa missão no mundo.

Na próxima edição, exploraremos o que isto significa em relação à crise ecológica atual, que se manifesta no aquecimento global.

Traduzido por Wagner Guimarães.

Fonte: Revista Ultimato Novembro - Dezembro de 2010.

Criação, salvação e o futuro do cosmos

por Carlos Caldas

Tradicionalmente, a teologia sistemática divide as matérias do seu conteúdo em unidades estanques. Tal divisão é feita com uma intenção didática, que pode ser boa. Na prática, porém, há alguns problemas. Um deles tem a ver com o uso que se faz da Bíblia. Ao se separar um capítulo, procura-se ajuntar os textos que falam sobre aquele tema. Só que os autores bíblicos não tinham essa preocupação. Em vez disso, escreviam com uma liberdade impressionante, e não raro combinavam temas que, séculos mais tarde, foram separados por teólogos no esforço de sistematizar o ensino bíblico.

Um exemplo é o que a Bíblia fala sobre a criação, a salvação e a escatologia. Ela não trata de tais temas isoladamente. Na tradição evangélica, o tema da criação, por exemplo, tem sido abordado apenas na perspectiva de uma discussão apologética antievolucionista. Se isso acontece, perde-se muita coisa. Biblicamente, a criação é a base da salvação. O problema é que, com séculos de influência platônica, muitos cristãos pensam que a salvação é só da “alma”, enquanto a Bíblia aponta para uma salvação integral.

O texto de 1 Pedro 1.9 traz a expressão “salvação da alma”, tanto nas versões protestantes como nas católicas. É uma pena que quase todas as editoras bíblicas tenham optado por traduzir o grego “psychon” por “almas”, que dá a ideia de uma substância imaterial separada do corpo. A melhor tradução seria “vidas”, isto é, a totalidade da existência, o que inclui o corpo e tudo que faz com que o ser humano seja humano. Em Romanos 8.19-24, Paulo fala da expectativa quanto à plenitude da salvação, esperança compartilhada pelos seres humanos e pela própria natureza. Pedro (2Pe 3.13) fala do futuro do cosmos em termos de “novos céus e nova terra”, linguagem extraída de Isaías 65.17. E Apocalipse também fala de “novo céu e nova terra”, lugar da habitação de Deus com seu povo. É surpreendente que, nos capítulos finais da revelação de Deus, não se fala de “almas” que sobem para um “céu”, mas da nova Jerusalém que desce do céu à terra. Será a concretização da salvação. “Creio na ressurreição do corpo” é preciso resgatar a linguagem do Credo Apostólico. É oportuno lembrar a expressão que já se tornou clássica em estudos teológicos, criada pelo teólogo alemão Pannenberg: a ressurreição de Jesus é um evento proléptico, isto é, que antecipa o futuro. Se quisermos saber como será o amanhã, basta olhar para o ontem: ontem Jesus ressuscitou; amanhã ressuscitaremos. E em totalidade, corpo e alma, junto com a criação, serviremos ao Senhor.
 
O pensamento bíblico unifica o passado (a criação), o presente (a salvação) e o futuro (a renovação da criação). As implicações para a missão da igreja são várias: se o futuro do cosmos é a renovação da criação, a igreja deve anunciar essa esperança em Jesus Cristo e se envolver em ações de cura de um mundo doente e em ações que promovam a justiça. O texto de 2 Pedro 3.13 faz ecoar duas passagens que falam da vinda do Deus que faz justiça (Sl 96.10-13; Sl 98.4-9). Não é coincidência que, quando os textos bíblicos anunciam a esperança na vinda do Deus que faz justiça, o mar, os rios e as árvores sejam convocados para louvá-lo.

A esperança cristã é otimista Deus vai fazer justiça na terra e vai restaurar a criação. A igreja em missão deve agir nessa direção.
Fonte: Revista Ultimato de julho-agosto de 2010.

Carlos Caldas é professor na Escola Superior de Teologia e no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

6.6.11

No meio do jardim e da cidade, o meio ambiente

por Fernando Oliveira   


"Se toda a poesia numa palavra
Eu ficaria com Jardim".
Gerson Borges

Há muitos anos, quando Jacques Cousteau revelava imagens da vida marinha, ao mesmo tempo em que mostrava preocupação com a manutenção do equilíbrio da ecologia e com a preservação das espécies, ambientalismo e ecologia eram assuntos para poucos. Parece que a ficha começa a cair cada vez mais para a maioria das pessoas. Ter consciência ecológica e cuidado com o planeta significa atentar-se para a própria casa. Aliás, a expressão eco, tão presente hoje em dia, vem do grego e significa “casa”.
 
A Bíblia começa num jardim e termina numa cidade. Há o jardim do Éden em Gênesis e há a Nova Jerusalém em Apocalipse. Ambos jardim e cidade santa não têm santuário, pois Deus mesmo é o seu santuário e em ambos a vida se dá em sua presença de forma ininterrupta, plena e sem obstáculos. Vivemos entre o jardim que passou e a cidade celestial que virá. Perdemos o jardim e dele sentimos saudade; moramos na cidade e vemos com esperança a Nova Jerusalém. Até a árvore da vida está lá. O jardim foi feito por Deus e lá ele colocou o homem, criado conforme sua imagem e semelhança, para com ele se relacionar e cuidar da criação. A Nova Jerusalém desce do céu, da parte de Deus, para se instalar entre os homens.

 
Se o jardim é criação das mãos bondosas de Deus, a cidade é realização das mãos ensanguentadas de Caim, que edificou a primeira, para nela habitar, depois de ter matado o irmão, Abel, e se retirado da presença do Senhor. Porém, o grande construtor de cidades foi Ninrode, neto de Cam, que era filho de Noé. É o primeiro homem descrito na Bíblia como poderoso e caçador. Edificou várias cidades, entre elas Babel e Nínive, cidades emblemáticas na história bíblica.

 
No livro “The Meaning of the City”, Jacques Ellul vê na edificação da cidade um ato de rejeição da proteção de Deus, pois quando o homem a edifica ele rejeita a criação de Deus, opondo-se ao jardim. Segundo Ellul, em sua origem a cidade é lugar da autoproteção do homem e ao mesmo tempo uma tentativa de fugir da maldição de Deus. Por isso, ela é resultado da alienação de Deus, e também elemento alienante para o homem do resto da criação. O homem refugiou-se na cidade para não ter de dizer: “O Senhor é a minha rocha, a minha cidadela” (Sl 18.2). Na cidade o homem enganosamente pensou que não precisava mais do jardim.

 
A Nova Jerusalém é fruto da graça de Deus que trouxe redenção ao homem e a tantas das suas realizações. É fruto final da busca amorosa de Deus pelas cidades. É o caso de Nínive, Jerusalém, Samaria. Assim, a Nova Jerusalém é habitação eterna do Criador com sua criatura, a união dos propósitos divinos que santificam os projetos humanos por meio do Cordeiro. É cidade com alma de jardim.

 
A redenção de Jesus Cristo abrange toda a criação. Paulo deixa isso claro em Romanos 8.19-22. Ser discípulo de Jesus não é só voltar à comunhão com Deus perdida no jardim -- é encher-se de esperança pela realização da cidade santa trabalhando hoje para que o jardim brote novamente no meio da cidade. Isso é dar o devido valor e dignidade àquilo que Deus criou. É ter a mente de um cidadão e o coração de um jardineiro.

 
Fonte: Revista Ultimato de maio-junho de 2010.


Fernando Oliveira mora em São Paulo, é pastor da Igreja Nova Aliança há vinte anos e apresenta o programa “Papo na Rede”, no portal www.koinoniaonline.com.br. fco@osite.com.br

O Filho do Homem na COP 15

por Victor e Mônica Duck

Durante a Conferência do Clima de Copenhague, em meio a participantes ilustres, um repórter teve sua atenção voltada para um homem. Ele estivera presente o tempo todo, parecia conhecer todos, mas ninguém perguntara sua opinião. O repórter decidiu entrevistá-lo. Sua identificação não tinha nacionalidade; seu nome, um tanto estranho: Filho do Homem.
Qual é a sua expectativa a longo prazo quanto à preservação do meio ambiente?
Bem, longo prazo depende do ponto de vista. Mas, pensando no meio ambiente do qual você está falando, quero fazer duas citações da Bíblia: “Naquele dia os céus serão desfeitos pelo fogo, e os elementos se derreterão pelo calor. Todavia, de acordo com a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça” (2Pe 3.12b-13); “Então vi ‘novos’ céus e ‘nova’ terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia” (Ap 21.1). Este novo “meio ambiente” não se pode nem comparar com o que você conhece.
Se entendi bem, na sua opinião, o que se espera é algo novo. Então, qual é o sentido de toda essa discussão sobre produção de energia limpa, responsabilidade ambiental e a própria contribuição individual de cada pessoa?
O sentido está na motivação das pessoas. O salmista diz o seguinte: “Louvem o Senhor, vocês que estão na terra, serpentes marinhas e todas as profundezas, relâmpagos e granizo, neve e neblina, vendavais que cumprem o que ele determina, todas as montanhas e colinas, árvores frutíferas e todos os cedros, todos os animais selvagens e os rebanhos domésticos, todos os demais seres vivos e as aves, reis da terra e todas as nações, todos os governadores e juízes da terra, moços e moças, velhos e crianças. Louvem todos o nome do Senhor” (Sl 148.7-13). As conversas da COP-15 têm esta motivação?
Então quais são as suas sugestões práticas?
Algum tempo atrás, certo casal ouviu o seguinte: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra” (Gn 1.28). Encher, subjugar e dominar não significa destruir nem explorar. Pelo contrário, é “ser mordomo”, é “cuidar”, é “preservar”. “O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para ‘cuidar’ dele e ‘cultivá-lo’” (Gn 2.15).
Parece-me que isso foi há muito tempo. Vivemos situações novas, como, por exemplo, a grande quantidade de poluentes eliminados em função do desenvolvimento. Neste sentido, como podemos saber se estamos cuidando ou destruindo?
Novamente: o que define é a motivação. “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros ‘superiores’ a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos ‘outros’” (Fp 2.3-4).
Isso quer dizer que para se chegar a um acordo o presidente de um país teria mesmo de levar em consideração os interesses dos outros países, considerando-os superiores?
Sim, essa é a solução. Preciso ir, mas antes gostaria de abordar mais um aspecto. Algum tempo atrás, o Criador do meio ambiente falou o seguinte para o grande governante Salomão: “Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra” (2Cr 7.14). Essa oferta ainda é válida.

Fonte: Revista Ultimato de março-abril de 2010.
• Victor e Mônica Duck são casados e missionários em Asas de Socorro, em Manaus, AM. Ele é mecânico aeronáutico e ela, bióloga.

13.5.11

E você, quanto ama o mundo?

por Timóteo Carriker

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito...” João 3.16 Imagino que haja muitas objeções a este raciocínio. A primeira se baseia em 1 João 2.15: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele”. A solução é fácil. Apesar de os dois textos usarem a mesma palavra, “kosmos” (mundo), em João 3.16 ela se refere ao mundo físico ou humano, enquanto em 1 João 2.15 se refere aos valores negativos de um “mundo” pecaminoso. Voltando à pergunta do título, se Deus amou o mundo a ponto de dar seu único Filho, qual é a medida do nosso amor pelo mundo? Surge então a segunda objeção: Será que João não está se referindo ao mundo de pessoas em vez de se referir ao mundo físico?

Ele está falando do mundo de pessoas sim. Aqui, “mundo” claramente se refere aos dois aspectos do mundo criado por Deus: humano e não-humano. Basta ler João 1.9-10. Talvez a conexão entre os dois fique mais clara se considerarmos Romanos 8.18-25, em que a salvação da humanidade e do mundo não-humanos é interligada.
 
Toda a criação um dia será “salva”, isto é, renovada e recuperada. Porém, de acordo com Romanos 8, esta redenção da criação só acontece depois da salvação dos seguidores de Cristo. E o motivo é que, embora a redenção venha sempre e unicamente de Deus, ele próprio incumbe o seu povo de ser instrumento para anunciar tal redenção. Por isso, o povo de Deus, a igreja, tem um papel importantíssimo na redenção da criação. Certamente, entre outras coisas, isso implica num compromisso ativo que os ecologistas chamam de “conservação”. A palavra preferida das Escrituras parece ser “redenção” ou “renovação”. Basicamente, o que Paulo descreve em Romanos 8 é o que o visionário João fala em Apocalipse quando descreve o novo céu e a nova terra.
Agora talvez já tenha surgido uma terceira objeção à ideia de “amarmos este mundo como Deus amou”.

Afinal, a Bíblia não afirma que este mundo físico, antes do fim dos tempos, se desfará? Então, por que tanto esforço para conservá-lo? Será que a Bíblia ensina que o mundo físico que conhecemos um dia não mais existirá? Vejamos 1 Pedro 3.7 e 12. Ambos os versículos falam da “destruição” por meio do “fogo”, tanto na maioria das nossas traduções quanto no original. Lendo esses versículos isoladamente e fora do seu contexto, só podemos concluir que o mundo físico aguarda, de fato, uma destruição futura total, uma aniquilação e o desaparecimento, assim como o fogo transforma a madeira em cinzas. Porém, o versículo 6 muda esta leitura. Os céus e a terra, isto é, o mundo físico, serão destruídos, consumidos pelo fogo, “da mesma forma” que o mundo físico anteriormente foi destruído pelas águas. Que tipo de “destruição” é essa? Por um lado, tal destruição certamente não é aniquilação, obliteração, e extinção total. Pois, depois do dilúvio, o mundo continuou a existir. Porém, tal destruição não ocorreu sem dor e sem estrago substancial. Portanto, a destruição do dilúvio e do mundo futuro “envolve grande dano, mas não a inexistência”. Outros usos desta linguagem nas escrituras apontam para a ideia de purificação e transformação, um processo doloroso e abrangente (Ml 3.1-4; 1Co 3.12-15).

Isto significa que “novos céus” e “nova terra” não são “outros céus” e “outra terra”, mas céus e terra renovados, da mesma forma que Cristo nos transforma em novos homens e novas mulheres, isto é, não fisicamente em outras pessoas, mas em pessoas renovadas, e assim, em outras pessoas interiormente.
 
Voltamos à pergunta inicial: Quanto nós amamos este mundo? Quanto amamos a criação de Deus, que ele próprio pretende renovar? Qual é a nossa ação atual de manifestação deste amor?  


Fonte: Revista Ultimato de novembro-dezembro de 2009.

• Timóteo Carriker é teólogo, missionário da Igreja Presbiteriana Independente, capelão d’A Rocha Brasil e surfista nas horas vagas. É autor de A Visão Missionária na Bíblia e coordena diversos sites (acesse www.tim.carriker.com).