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3.4.16

DEUS NO PRÓXIMO

Em algum momento os israelitas precisaram registrar através da escrita, talvez porque outros povos já tivessem feito a resposta para uma pergunta que paira sobre todas as civilizações: de onde os seres humanos vieram?
 
Recorreram as história que ouviram de seus pais, dos seus avós e demais ancestrais. Através de uma narrativa poética, o texto de Gênesis afirma que Javé, o Deus de Israel, decide criar o ser humano com características suas – imagem e semelhança – e molda a partir do pó, da terra. Ou seja, da  matéria do planeta que habita o ser humano e lhe transmite vida ao soprar sobre este novo ser.
 
A afirmação de que somos feitos de barro, da terra, mostra-nos a condição finita na qual nos constituímos, isto é, matéria bem como  a natureza, colocando-nos numa posição de igualdade e, sobretudo, de cuidadores.
 
Ao dizer que a vida provém de Javé, esta história nos recorda que cada ser humano, ao respirar, está declarando, rememorando, que a divindade está dentro dele.
 
Os cristãos (pequenos Cristos) creem que o pai de Jesus e Javé são o mesmo Deus e ainda que o Cristo é a expressão máxima e mais precisa dEle.
 
Jesus expressa a presença de Deus nos seres humanos não somente por adotar a forma, a matéria e as emoções. Ele opta por estar no meio do povo e não se nega a ter contato, literalmente tocar qualquer pessoa, até mesmo aquelas que eram tratadas pela sociedade como sub-humanas, consideradas indignas até mesmo de conviver com suas famílias.

Imersos em uma cultura que cultua o individualismo, somos tentados,talvez arrastados, a ignorar sem nenhuma crise os exemplo de Jesus. Assim,  como no evangelho, precisamos nos perguntar: quem é o meu próximo?

3.4.15

Deus veio a nós!


A vinda tripla de Deus

Não somente no Novo Testamento cristão, mas também o Antigo Testamento judeu está orientado para a vinda de Deus ao seu povo, sua humanidade e sua terra. Se o povo se sente em terra estranha, abandonado por Deus e distante da terra prometida, então grita por ele, como mostram bem as lamentações bíblicas: Levanta-te, Senhor; levanta teu rosto e vem! (cf. Sl 4.6). Se o povo pressente a vinda de Deus, então deve preparar o caminho: “Levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória” (Sl 24.7). Experimenta-se a presença plena do Deus vindouro e então esse povo canta e dança diante dele, glorifica sua beleza.
Os dois Testamentos são testemunhas paralelas da esperança em Deus, assim como Israel e a Igreja são testemunhas da esperança no mundo. Nós vivemos no tempo do advento de Deus. A fé nos permite confiar em Deus e a esperança torna nossos sentidos despertos e alertas para o vindouro. Ele veio na carne, ele vem em Espírito e ele virá em glória.

Deus veio a nós em Jesus Cristo

A esperança cristã futura se fundamenta em uma lembrança histórica segura. Esta é a presencialização do Cristo de Deus, que veio ao nosso mundo. Ele faz de nossa vida a sua própria, transformando assim a terra num lugar de esperança. Tal fato diferencia a esperança cristã de todos os outros sonhos e temores futurísticos que ouvimos com frequência nos últimos dias.
Jesus Cristo se tornou extremamente próximo de mim quando procurei por Deus e não encontrei qualquer resposta. Assim, eu vim a crer em Deus por meio de Jesus Cristo. É por isso verdade quando digo: Sem Cristo, eu teria me tornado ateu. Pois partindo das experiências da história humana ou da contemplação da natureza, eu não teria a ideia que existe um Deus. Mais do que isto, não teria nunca pensado e crido que este Deus é amor e quer o nosso bem. Por causa de Cristo, comecei a crer em Deus. Dito de modo mais exato: Eu comecei a crer no Deus de Jesus Cristo. Este Deus que Jesus chamava de modo tão íntimo de Abba – Pai amado – e do qual anunciava aos pobres a chegada do reino. Sempre que penso em Cristo, sinto a proximidade de Deus e da vastidão de seu reino.
A primeira imagem pela qual fui achado por Cristo foi a imagem daquele que desesperançado, prisioneiro e torturado na cruz dos romanos, gritava por Deus. Eu me senti compreendido por ele como por um amigo que se torna partícipe em nosso destino. Cristo seguiu o caminho do sofrimento e do abandono para procurar pelas pessoas abandonadas e, assim, se tornar irmão delas. Isso me tocou de modo pessoal: Deus abandonou seu Cristo para que Ele viesse ao meu encontro no estado de abandono e me achasse. Descobri, assim, em seu destino, algo que ainda não tinha trabalhado em meu próprio destino. Algo de sua presença em minha própria vida.
Cristo socorre, Cristo salva. Ele não socorre, todavia, por meio de sua supremacia, mas sim, por sua solidariedade conosco em nossa impotência. “Pelas suas pisaduras, fomos sarados” é o que diz o profeta Isaías, referindo-se ao servo sofredor de Deus, o qual deverá redimir o mundo (Is 53.5).
“Somente o Deus que sofre pode socorrer” escreveu Dietrich Bonhoeffer na prisão. Deus socorre – primeiro e sempre – por meio de sua compaixão: “No mais profundo abismo, lá estás também” (Sl 139.8).

Deus veio a nós em Espírito

A esperança cristã do futuro se fundamenta na contemplação de Cristo e na experiência do Espírito vivificante. Nós não apenas relembramos a história de Cristo e esperamos pelo futuro de Deus. Nós já experimentamos também hoje “os poderes do mundo vindouro” (Hb 6.5). Essas são as “energias vitais” do Espírito Santo.
Mas quem é o Espírito Santo? O Espírito Santo é o Espírito da vida que vitaliza todas as coisas por ele tocadas. Ele é presença vital de Deus no mundo. O dom da presença deste Espírito de Deus é o que de maior e mais maravilhoso pode ser experimentado por todas as formas de vida, tanto em âmbito pessoal quanto comunitário. No Espírito Santo, não está presente um tipo qualquer de espírito entre tantos outros, mas Deus mesmo. O Deus vivo que é criador, libertador e salvador.
Onde está o Espírito, ali está Deus de modo especialmente presente. Não em uma forma de onipresença, mas na forma de automanifestação. E onde Deus se manifesta, ali Ele partilha de si mesmo. As energias criativas de sua vida eterna abundam e perpassam nossa vida mortal e a fazem, desde dentro, plenamente viva. Onde quer que sintamos o Espírito de Deus, ali nós experimentamos Deus. Como? Por meio de nossa vida vivida. Nós experimentamos a vida curada e redimida, amada e amável. Não experimentamos a vida apenas como uma nova espiritualidade do coração ou nova teologia da cabeça, mas com todos os nossos sentidos, como uma nova vitalidade da vida. Nós sentimos e degustamos, ouvimos, cheiramos e vemos nossa vida em Deus e Deus em nossa vida, assim como é dito em 1 João 1.1-2:
O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nosso próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna...).
Existem muitos nomes para este Espírito da vida porque existem variadas experiências de vida. Para mim, são os mais lindos os nomes de consolador e fonte de vida.
Na comunhão com Cristo, experimentamos as forças vitais do Espírito divino. Quem se tornou triste e sem participação em nada na vida, quem não sente mais em si qualquer vitalidade, deve se votar para o Cristo e experimentará a nova vitalidade do Espírito de Deus. A meu ver, esta constitui a nova sensualidade (referente aos sentidos) da vida e o vasto âmbito vital de Deus.
Assim como na experiência de uma grande tristeza nossos sentidos se apagam e não podemos mais ver qualquer cor, ouvir nenhum tom e perceber o paladar, parecendo mortos-vivos, assim também se abrem os nossos sentidos novamente quando respiramos o amor de Deus. Nós vemos de novo este mundo multicolorido, nós ouvimos novamente melodias, recuperamos nosso paladar e todos os sentimentos. Somos tomados por uma grande aceitação da vida, aceitação do Espírito vital divino.
Para o desenvolvimento desta nova vida, precisamos de um lugar espaçoso. ”Tu me pões num lugar espaçoso”. Este lugar espaçoso é o presente do Deus infinito, o qual cerca a nossa vida finita (Sl 139.5). A presença divina nos cerca por todos os lados. Isso nos permite desenvolver nossa vida finita para todos os lados. Nós podemos nos movimentar em Deus e Deus morar em nós. Deus não é somente uma pessoa com a qual podemos falar, mas também o espaço no qual podemos desenvolver nossas vidas. Segundo a tradição judaica, um dos nomes de Deus é Makom (espaço). Nós, seres humanos, damo-nos espaço mutuamente sempre que nos abrimos em amor e amizade mútuos e permitimos que os outros seres humanos tomem parte em nossa vida. Sem tal espaço livre na vida comunitária, não existe qualquer liberdade pessoal. O amor dá espaço e tempo para a liberdade. Onde quer que nós experimentemos este espaço livre, ai nós experimentamos a presença de Deus em nós.

Deus veio a nós em Glória

O Deus que nos foi mostrado por Cristo é o “Deus da Esperança”, como Paulo o chama em Romanos 15.13. Deus não é o eterno que está aqui, esteve aqui e aqui estará, mas o Deus que “vem” (Ap 1.4). Ele vem ao nosso encontro desde o seu futuro. Por isso é que o abrangente horizonte do futuro não é algo que se acrescente ao Cristianismo, mas seu elemento constitutivo. Crer significa viver na presença do Cristo ressuscitado e se deixar orientar pelo seu reino vindouro “assim na terra como no céu”. Nós vivemos na expectativa de sua vinda. Nós não aguardamos o seu “retorno”, mas vivemos cada dia na luz de sua vinda. Sobre nós brilha a estrela da promessa. A promessa de Deus é como a aurora que anuncia a chegada de um novo dia: o dia de Deus. “Vai alta a noite, e vem chegando o dia”, assim descreve Paulo a sensação cristã do tempo (Rm 13.12).
Que futuro pode preencher as promessas de Deus, nossas esperanças e as expectativas da terra? Deus vem para morar na terra com os seres humanos. A totalidade da criação se tornará, então, seu templo. O apocalipse descreve isto por meio da imagem da “Jerusalém divina”, a qual desce sobre a terra. Por conta dessa Schechinah de Deus, tudo precisa ser recriado e preparado. Então serão enxugadas todas as lágrimas, o sofrimento e pranto vão passar e a morte não existirá mais (Ap 21.5). Quando o divino estiver em tudo o que é terreno e tudo o que é terreno estiver em todo o divino, então a beleza divina fará todas as coisas resplandecerem. Esta é a plenificação da esperança histórica da humanidade e a consumação da criação. Em seguida, estará tudo criado como foi no princípio: a vida e a luz, as plantas e os animais e também os seres humanos.
Segundo 2 Pedro 3.12, devemos esperar e apressar o futuro de Deus. Isso soa contraditório, mas não o é. Vamos traduzi-lo em nossa experiência e em nossa língua:
Aguardar: é não se conformar às condições de injustiça e não reconhecer as forças daquilo que é factual, pois bem se sabe que alguma coisa melhor pode acontecer e algo diferente está por vir. Aguardar significa nunca se resignar, nem entregar-se a si mesmo. Poder aguardar – isto é uma arte da esperança. Paciência é a virtude da esperança. Aguardar significa viver em ansiosa atenção até a chegada da hora da consumação final. Poder aguardar é também fidelidade ao futuro prometido. “Senhor, Deus nosso, outros senhores têm tido domínio sobre nós; mas graças a ti somente é que louvamos o teu nome”, assim disse o povo de Deus prisioneiro quando do cativeiro babilônico (Is 26.13). E ele sobreviveu. Não existe nenhuma teologia da libertação sem esta teologia do cativeiro, como Rubem Alves notou bem.
Apressar: Aqui, o que se tem em mente é a superação da realidade presente e a antecipação do futuro do novo mundo de Deus, a cada passo e em cada ato nosso. Por meio de cada ato de justiça, preparamos o caminho da nova terra, onde reina a justiça. Faz-se justiça a quem sofre violência e brilha, então, o futuro de Deus em seu mundo. Engajamos-nos em favor de “órfãos e viúvas” e surge, então, um pouco mais de verdade em nosso mundo.
Conforme nós exploramos suas riquezas e forças vitais, a Terra geme com a violência e a injustiça. Ela aguarda por seu direito. Nós nos “apressamos” ao encontro do futuro de Deus quando antecipamos aquela justiça por meio da qual a “nova terra” deve surgir.
Aguardar e apressar: isto significa resistir e antecipar. Com isso, santificamos a vida e nos tornamos seres seguros do futuro de Deus. 

Fonte: Vida, esperança e justiça de Jürgen Moltmann. Editeo, 2008, pp. 12 - 17.




18.3.12

O indivíduo, a família e o evangelho


por Valdir Steuernagel



Muitos de nós crescemos com a percepção de que o evangelho é fácil e bonito. Escolhemos uma igreja e nela levamos nossas crianças, alimentamos rituais de passagem e fazemos celebrações familiares, envoltos em um “belo cenário”. O evangelho se torna um adendo, um cosmético para o nosso bem-estar. Porém, ele é algo bem diferente disto. Aliás, na edição anterior afirmamos que “é fácil, olhando para os Evangelhos, ver como Jesus é um causador de confusão”. Vimos a tensão vivida pela sua própria família quando ele perguntou de forma um pouco prepotente: “Quem é a minha mãe, e quem são meus irmãos?” (Mc 3.33)

Quem nunca ficou chocado com o modo relativo como Jesus parece tratar os vínculos familiares? Confesso ter dificuldade de entender quando ele diz que os inimigos serão os da própria casa e, também, que por causa do evangelho se criará cizânia familiar (Mt 10. 34-36). Quando ele chama os discípulos a segui-lo, pede fidelidade absoluta e coloca em segundo plano a importância da família (Lc 14.26). Dizemos que a intenção dessa palavra de Jesus é testar nossas prioridades. Contudo, seria mesmo necessário relativizar tanto os vínculos familiares? Ou haveria algum outro sentido nessa declaração?

Vejo três movimentos que precisamos discernir e abraçar no que se refere a essas palavras de Jesus. O primeiro nos desafia a olhar para dentro de nós, a reconhecer quem somos e a nos confrontar com os processos destrutivos que fermentam em nosso interior e poluem tudo a nossa volta: “Mas as coisas que saem da boca vêm do coração; são essas que tornam o homem impuro. Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfêmias” (Mt 15.18-19). Ao seguirmos Jesus, reconhecemos quem somos e, na busca por uma nova significação da vida, passamos por um processo de “lavagem interior”.

Contudo, como não somos indivíduos isolados da nossa história e contexto, este não é um processo individual. Somos, em grande parte, nossa história e nosso contexto. Criamos e impomos costumes e tradições que fazem parte da teia social que promove e também aprisiona a vida. Algo que foi constituído para facilitar e sustentar pode ser usado para escravizar, entristecer e empobrecer. Isso pode ser visto tanto nos milenares grupos étnicos e tribais quanto nas associações e aglomerados urbanos modernos. Jesus detecta e denuncia esses mecanismos. Ao acusar alguns de seus interlocutores de usar a tradição para deixar pai e mãe desprotegidos (Mt 15.3-6), ele se vale da relação familiar para demonstrar como isso acontece. Ao seguirmos Jesus, aprendemos a relativizar, não apenas nossos vínculos de pertencimento, mas também nossos usos e costumes. Por outro lado, ao segui-lo, experimentamos o sentido de resgate de nós mesmos, dos nossos vínculos e da nossa própria cultura. Por meio desse resgate, vemos aflorar o sentido tanto da família como do mandato cultural, com o qual fomos agraciados por Deus desde a criação.

O segundo movimento aponta, assim, para o resgate do sentido e da importância da família. O mesmo Jesus que em dado momento relativiza sua própria família, ao falar das tradições humanas, afirma o mandamento que aponta para o cuidado com os pais. E na hora de sua morte preocupa-se com a mãe e a entrega aos cuidados do discípulo João (Jo 19.27).

O evangelho não nos tira a família. Antes, acrescenta a ela uma família maior, que é a família da fé. Em conversa com os discípulos, Jesus aponta para essa realidade e lhes diz que serão recompensados com “irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos” (Mc 10.28-30). Assim, o evangelho nos abraça com a formação de uma comunidade que se nega a desenvolver tradições e costumes que encolham a vida, explorem o outro e se transformem em estruturas discriminatórias. O evangelho afirma opções de vida em que o interior é renovado e as prioridades são revistas, a família tem seu lugar restaurado e uma nova comunidade, com vocação de inclusão e de serviço em amor, emerge.

O terceiro movimento abraça o excluído, o solitário e o abandonado e resgata a dignidade da vida de cada um deles, como Jesus sempre fez. Aliás, foi para isso que ele apontou quando reagiu aos seus irmãos e à sua mãe, quando pretendiam buscá-lo e aprisioná-lo dentro de uma estrutura que ele queria relativizar e expandir. É preciso enxergar além da própria estrutura familiar; caso contrário, esta se torna egocêntrica, cansativa e maçante. É preciso ver que há um mundo lá fora que nos enriquece e desafia. Por isso Jesus diz que quem faz a vontade de Deus passa a ser sua família (Mc 3.35). E diz isso tanto para seus irmãos e sua mãe quanto para os que estavam ao seu redor. O segredo é fazer a vontade de Deus, e esta inclui honrar pai e mãe, cuidar dos filhos com amor, construir famílias integradas e belas e viver uma vida de amor e serviço. A verdade e a realidade disto são medidas, principalmente, a partir da maneira como se integra e se abraça o pequeno e o excluído. E disso nunca podemos nos esquecer.



Valdir Steuernagel • é teólogo sênior da Visão Mundial Internacional. Pastor luterano, é um dos coordenadores da Aliança Cristã Evangélica Brasileira e um dos diretores da Aliança Evangélica Mundial e do Movimento de Lausanne.

[1] Fonte: Revista Ultimato Março-Abril 2012.

20.1.12

Coisas que ficam para trás


por Gladir Cabral

No saguão de embarque do aeroporto de Congonhas (SP) há uma caixa de acrílico, logo na entrada onde as bagagens de mão são vistoriadas por um aparelho de raio X. Nessa caixa estão contidos vários objetos que os passageiros não puderam levar para dentro do avião: tesouras de cabeleireiro, tesouras escolares, facas, canivetes suíços, réguas de metal e objetos cortantes de vários tamanhos. Muitos desses objetos são caros, outros são completamente banais, outros ainda parecem ser caseiros, gastos pelo uso, improvisados. Tem até um ursinho de pelúcia! Deve ter sido doloroso para aquela criança deixar para trás tal objeto de afeto e desejo.
 
Certos momentos de nossa vida exigem que tomemos difíceis decisões. Certas coisas que cultivamos, certos hábitos, certos valores, certos desejos que trazemos no bolso devem ser deixados para trás. Para continuar a viagem, é preciso abrir mão deles. Isso é sempre necessário, às vezes doloroso, nunca fácil. Por outro lado, só assim nossas mãos e corações podem ficam mais livres de apegos e interesses menores. Na verdade, nem podemos imaginar a liberdade que encontramos ao deixar essas coisas para trás – é o que diz o músico cristão contemporâneo Michael Card.
 
Em sua belíssima canção “Things we leave behind”, o poeta medita sobre o chamado de Pedro e Mateus. Pedro esta à beira-mar, ocupado em seu ofício, consertando suas redes, quem sabe fazendo planos para uma nova pescaria, quem sabe refletindo sobre os ensinamentos do fascinante profeta João Batista. O fato é que Jesus se aproxima dele e o desafia a um novo projeto de vida: “Ser pescador de gente”. Imediatamente, Pedro abandonou os barcos, as redes, os “camaradas”, um estilo de vida de mais de 15 ou 20 anos, e seguiu a Jesus.
 
Mateus estava na coletoria, envolvido em seus relatórios, estatísticas, índices, cotas a serem alcançadas, pessoas a serem “visitadas”, bens a serem confiscados. Ele era coletor de impostos. Sua vida consistia em ter ou não ter, ganhar mais, acumular, taxar e calcular juros. Mas ao conhecer Jesus, uma transformação muito profunda ocorre em seu coração. Ao ouvir o chamado, ele deixa para trás a coletoria, certamente uma difícil decisão em tempos em que emprego, estabilidade financeira e posses materiais eram tão valorizados.

Existe algo estranho no exercício da posse. Facilmente as coisas que possuímos podem ser tornar donas de nosso coração. Facilmente nos tornamos adoradores e zelosos servidores de seus interesses. Temos uma propriedade. Muito bem. Silenciosamente, ela vai reclamando nossa atenção: já pagou o IPTU? Já pagou o IPVA? Viu só quanto estou valendo? Preciso de umas reformas? Olha só como sou preciosa! Você não vai querer me ver caindo aos pedaços, vai? O que seria de você sem mim? Eu é que lhe dou importância! Você acha que os outros lhe dariam atenção se não fosse meu dono? Como é que você vai viver sem mim?

Mas Cristo quer nos libertar do poder encantatório das coisas materiais. Ele quer libertar nosso coração da necessidade de centrar a vida na posse de coisas. Seu desafio de segui-lo exige de nós o exercício, às vezes doloroso, mas certamente necessário e surpreendente, de abrir mão de ser dono, proprietário último do que temos. Isso não quer dizer que devamos ser mendigos e viver de favores, pelo menos não todos nós. Na verdade, o que Ele quer mostrar é que não precisamos dessas coisas para viver plenamente. Podemos até tê-las em nosso nome, mas não em nosso coração. Então veremos quanta liberdade encontramos ao abrir mão dessas posses.

Meditemos na letra da canção “Coisas que deixamos para trás” (Things We Leave Behind), de Michael Card:
 
Lá está Simão assentado, tão tolamente sábio,
Consertando com orgulho suas redes.
Mas Jesus o chama e os barcos partem,
E tudo o que tem ele esquece.
Porém mais do que as redes que ele abandonou naquele dia,
Ele descobriu que seu orgulho estava acabando.
É difícil imaginar a liberdade que alcançamos
Com as coisas que deixamos para trás.
 
Mateus era rigoroso ao cobrar impostos
E obrigar as pessoas a pagar.
Mas, ouvindo o chamado, ele respondeu em fé
E seguiu a Luz e o Caminho.
E deixou o povo perplexo ao descobrir
Que a cobiça não estava mais lá.
É difícil imaginar a liberdade que alcançamos
Com as coisas que deixamos para trás.
 
Todo coração precisa se libertar
De posses que os prendem tão fortemente,
Pois a liberdade não está nas coisas que possuímos
Mas é o poder de fazer o que é certo.
Com Cristo, nossa única posse,
E dar se torna nosso prazer,
É difícil imaginar a liberdade que alcançamos
Com as coisas que deixamos para trás.
 
Nós mostramos em nossas vidas o amor pelo mundo
Quando adoramos as coisas que possuímos.
Jesus disse: “Deixa de lado os teus tesouros
E ama a Deus acima de todas as coisas!”.
Porque quando dizemos não às coisas do mundo,
Abrimos nosso coração para o amor do Senhor
E é difícil imaginar a liberdade que conseguimos
Com as coisas que deixamos para trás.

8.1.12

Percepções de si mesmo

por Taís Machado


Necessitamos ser amados. O orgulho é uma espécie de disfunção na capacidade de perceber-se amado. Portanto, o orgulho pode ser o estado de uma alma insegura, a manifestação de uma carência que desconfia jamais ser suprida.
 
Vive-se como se a vida fosse um concurso. Só que o orgulhoso procura, além disso, não apenas ser classificado, mas ser o primeiro. Afinal, ele não pode viver sem provar a si mesmo e exibir aos outros que ele é o melhor.
 
Geralmente o orgulhoso não tem consciência de que é assim. Entende-se apenas como esforçado, bastante dedicado, que se interessa inteiramente pelas coisas, que não desiste -- enfim, um brasileiro superior. A razão pode ser um forte apoio para justificar-se e defender-se inconscientemente.
 
O que predomina naquele que é tomado pelo orgulho é a competição. E quem compete, necessariamente, precisa observar o outro. Vive prestando atenção no desempenho do próximo a fim de superá-lo. Ou seja, a comparação é como o ar que ele respira. Não consegue viver sem isso, está o tempo todo vendo e julgando.
 
O orgulhoso é compelido a insinuar seus feitos todo o tempo. Ofende-se se não é mencionado. Considera-se facilmente injustiçado e os demais, ingratos, quando se trata, na verdade, de dificuldades suas.
 
Dominado pelo orgulho, assume um jeito de viver em que a autossuficiência se revela, às vezes, discretamente, em outras ocasiões, explicitamente. Assim seus dias ficam mais cansativos, pois vivem acorrentados ao peso de não poder pedir ajuda. Sentem como se isso fosse uma vergonha mortal.
 
Tudo isso compromete sua capacidade de gratidão e contentamento. O orgulhoso vive inconformado com a falta de reconhecimento dos que o cercam quanto a tudo que já fez. Chega a julgar o próprio Deus e vê-se no direito de explicar por que percebe que de certa forma Deus está em dívida com ele. Em última análise, pode concluir que Deus não é de fato confiável, pois não é justo. Sendo assim, vive uma solidão cruel, que se esmera por disfarçar.
 
A alma adoecida pelo orgulho acaba por viver seus dias miseravelmente. Vê inimigos o tempo todo, sente uma perseguição implacável em seu cotidiano. Portanto, envelhece com raízes de amargura, com dureza ímpar, com sofrimentos desnecessários. A distorção na maneira de olhar e interpretar a si mesmo, os outros e o seu contexto enruga a alma de tal maneira que poucos vestígios sobram da imagem de Deus, o Criador.
 
Tais Machado, paulistana, é psicóloga clínica e professora em seminários teológicos. É secretária nacional de capacitação da Aliança Bíblica Universitária do Brasil.

30.12.11

Sugestões para 2012!



#1
Não assuma compromissos do tipo “vou iniciar uma dieta”, “vou começar alguma atividade física”, “vou terminar o curso de inglês”. Esse tipo de coisa serve apenas para acumular culpa e frustração sobre os seus ombros.

#2
Não acredite nesse pessoal que diz que “sem meta você não vai a lugar nenhum”. Pergunte a eles por que, afinal de contas, você tem que ir a algum lugar. Trate esses “lugares futuros imaginários” apenas como referência para a maneira como você vive hoje – faça valer a caminhada: se você chegar lá, chegou, se não chegar, não terá do que se arrepender. A felicidade não é um lugar aonde se chega, mas um jeito como se vai.

#3
Não pense que você vai conseguir dar uma guinada na vida apenas mudando o seu visual. É a alegria do coração que dá beleza ao rosto, e não a beleza do rosto que dá alegria ao coração.

#4
Não faça nada que vá levar você para longe das suas amizades verdadeiras. Amizades levam um tempão para se consolidar e um tempinho para esfriar, pois assim como a proximidade gera intimidade, a distância fragiliza os vínculos.

#5
Não fique arrumando desculpas nem explicações para as suas transgressões. Quando cometer um pecado, assuma, e simplesmente diga “fiz sim, me perdoe”. Comece falando com Deus e não pare de falar até que tenha encontrado a última pessoa afetada pelo que você fez.

#6
Não faça nada que cause danos à sua consciência. Ouça todo mundo que você confia, tome as suas decisões, e assuma as responsabilidades. Não se importe em contrariar pessoas que você ama, pois as que também amam você detestariam que você fosse falso com elas ou se anulasse por causa delas.

#7
Não guarde dinheiro sem saber exatamente para que o está guardando. Dinheiro parado apodrece e faz a gente dormir mal. Transforme suas riquezas em benefícios para o maior número de pessoas. É melhor perder o dinheiro que ocupa seu coração, do que o coração que se ocupa do dinheiro.

#8
Não deixe de se olhar no espelho antes de dormir. Caso não goste do que vê, não hesite em perder a noite de sono para planejar o que vai fazer na manhã seguinte. Ao se olhar no espelho ao amanhecer, lembre que com o sol chega também a misericórdia de Deus: a oportunidade de começar tudo de novo.

#9
Não leve mágoas, ressentimentos e amarguras para o ano novo. Leve pessoas. Sendo necessário, perdoe ou peça perdão. Geralmente as duas coisas serão necessárias, pois ninguém está sempre e totalmente certo. Respeite as pessoas que não quiserem fazer a mesma viagem com você.

#10
Não deixe de se perguntar se existe um jeito diferente de viver. Não acredite facilmente que o jeito diferente de viver é necessariamente melhor do que o jeito como você está vivendo. Concentre mais energia em aprender a desfrutar o que tem do que em desejar o que não tem.

#11
Não deixe o trabalho e a religião atrapalharem sua vida. Cante sozinho. Leia poesias em voz alta. Participe de rodas de piada. Não tenha pressa de deixar a mesa após as refeições. Pegue crianças no colo. Ande sem relógio. Fuja dos beatos.

#12
Não enterre seus talentos. Nem que seu único tempo para usá-los seja da meia noite às seis. Ninguém deve passar a vida fazendo o que não gosta, se o preço é deixar de fazer o que sabe. Útil não é quem faz o que os outros acham importante que seja feito, mas quem cumpre sua vocação.

#13
Não crie caso com a mulher ou com o marido. Nem com o pai nem com a mãe. Nem com o irmão nem com a irmã. Caso eles criem com você, faça amor, não faça a guerra. O resto se resolve.

#14
Não jogue fora a utopia. Ninguém consegue viver sem acreditar que outro mundo é possível. Faça o possível e o impossível para que esse outro mundo possível se torne realidade.

#15
Não deixe a monotonia tomar conta do seu pedaço. Ninguém consegue viver sem adrenalina. Preste bastante atenção naquilo que faz você levantar da cama na segunda-feira: se for bom apenas para você, jogue fora ou livre-se disso agora mesmo. Caso não queira levantar da cama na segunda-feira, grite por socorro.

#16
Não deixe de dar bom dia para Deus. Nem boa noite. Mesmo quando o dia não tiver sido bom. Com o tempo você vai descobrir que quem anda com Deus não tem dias ruins, apenas dias difíceis.

#17
Não negligencie o quarto secreto onde você se encontra com seu eu verdadeiro e com Deus – ou vice-versa. Aquele quarto é o centro do mundo – o mundo todo cabe lá dentro, pois na presença de Deus tudo está e tudo é.

#18
Não perca Jesus de vista. Não tente fazer trilhas novas, siga nos passos dEle. O caminho nem sempre será tão confortável e a vista tão agradável, mas os companheiros de viagem são inigualáveis.

#19
Não caia na minha conversa. Aliás, não caia na conversa de ninguém. Faça sua própria lista. Escolha bem seus mestres e suas referências. Examine tudo. Ouça seu coração – geralmente é ali que Deus fala. Misture tudo e leve ao forno.

#20
Não fique esperando que sua lista saia do papel. Coloque o pé na estrada. Caso não saiba por onde começar, não tem problema. O sábio disse ao caminhante que “não há caminho, faz-se caminho ao andar”.

28.4.11

A continuação da continuação

O primeiro problema é não começar coisa alguma. O segundo é começar e não ir adiante. O terceiro é começar, ir adiante por algum tempo e desistir pouco depois. Para quem já pôs de maneira correta as mãos no arado, o maior desafio é a continuação da continuação.

Primeiro, vem a descoberta da fé, a iniciação, o despertar, o abraçar, a conversão. Depois, vem a caminhada, a negação do eu, a renúncia do pecado, a obediência devida a Jesus Cristo, a continuação do compromisso, da nova vida, da nova experiência, da nova situação. Por último, vem a continuação da continuação.

Ao sair da prisão, Pedro bateu, altas horas da noite, à porta da casa de Maria, mãe de João Marcos. A empregada veio, mas não abriu a porta, e Pedro continuou a bater. Seguiu-se uma discussão entre a empregada e os irmãos que estavam ali a noite toda orando por Pedro. O apóstolo não desistiu e continuou a continuação, até que a porta se abriu (At 12.12-16). O mesmo aconteceu com o homem da parábola de Jesus que insistiu com o amigo até ele lhe emprestar três pães (Lc 11.5-8).

Embora Paulo se congratule com os coríntios, porque eles tinham aceitado o evangelho e continuavam firmes (1Co 15.1), no versículo seguinte o apóstolo chama a atenção para a continuação da continuação: “A mensagem que eu anunciei a vocês é o evangelho, por meio do qual vocês são salvos, se continuarem firmes nele” (15.2, NTLH). Antes de encerrar a carta, por mais duas vezes, Paulo exorta-os a continuarem firmes: “Continuem fortes e firmes” (15.58) e “Estejam alertas, fiquem firmes na fé, sejam corajosos, sejam fortes” (16.13, NTLH).

A continuação da continuação resolverá muitos problemas dos cristãos e da igreja. É essa falta de continuação, dia após dia, que arrefece a fé e o testemunho. Não há feriados nem férias para a continuação da continuação. A continuação é uma linha firme que liga o ontem ao hoje e o hoje ao dia final. A caminhada não é curta; ela é comprida e muito comprida. Jesus menciona essa continuação no sermão profético: “Todos odiarão vocês por serem meus seguidores, mas quem ficar firme até o fim será salvo” (Mc 13.13, NTLH). Não existem paradas ao longo do caminho. A única parada é o fim dos tempos, quando Jesus voltar, por ocasião da plenitude da salvação. A continuação da continuação descamba na consumação da história. Daí o conselho: “Nosso profundo desejo é que cada um de vocês continue com entusiasmo até o fim, para que, de fato, recebam o que esperam” (Hb 6.11, NTLH)!

Se houver alguma parada provocada por negligência ou pecado, a regra é: “Comecem de novo a viver uma vida séria e direita e parem de pecar!” (1Co 15.34, NTLH).

Jesus deixou claro que a continuação da continuação é um elemento importante na oração, como se pode ver na parábola da viúva persistente (Lc 18.1-6).

Fonte: Revista Ultimato Março-abril 2011

14.3.11

Deus não tem pressa

Por Marcos Bontempo

Deus não tem pressa. Aliás, desconfio que ele não tenha relógio. Mas, ao contrário do que possa parecer, a frase "deus tarda, mas não falha" também não lhe diz respeito.

Acompanhe o que talvez seja a segunda proposta de trabalho de Deus ao homem. É bom lembrar que a primeira — feita a Noé —, da ideia à realização, levou não menos do que cem anos. Agora, trata-se de um projeto novo. Uma espécie de PAC (Plano Ancestral de Crescimento) da humanidade: "Quando Abrão estava com noventa e nove anos de idade o Senhor lhe apareceu e disse: ‘Eu sou o Deus todo-poderoso; ande segundo a minha vontade e seja íntegro. Estabelecerei a minha aliança entre mim e você e multiplicarei muitíssimo a sua descendência’" (Gn 17.1-2).

O leitor sabe do que Deus está falando. E não é a primeira vez que o Todo-Poderoso toca no assunto. Cinquenta anos antes, Deus havia sugerido uma mudança radical na vida do velho e manso Abraão. E, até agora, nada. Mas Deus repete as suas intenções.

Aqui, volto ao argumento inicial. Nós temos pressa — necessidade intensa de alcançar um objetivo. Não nos contentamos com o “enquanto”. A travessia não nos interessa, queremos chegar “lá”. No entanto, Deus não é assim. Ou você faria um contrato de longo prazo com alguém de 99 anos de idade? Mas, ao conversar com Abraão, como se fosse necessário, Deus relembra também quem ele [Deus] é. Depois, como se falasse a um bando de adolescentes com hormônios à flor da pele, reclama obediência e integridade. E, por último, com fina ironia, fala dos seus planos, claro, para o futuro...

Deus não tem pressa. Melhor, Deus tem tempo. E, graças a ele, mesmo sem saber exatamente que horas são, nós cabemos nos seus planos. Nesses dias corridos e em meio aos imprevistos, não há melhor consolo do que escutar: “Ainda dá tempo”... (Sl 90). Nas palavras de C. S. Lewis, "a Deus pertence o nosso futuro, não importa se o deixamos em suas mãos ou não".



26.2.11

Adoração a quem...?

                                                                                                                                              por Allan Reis

É comum ao entrarmos no consultório de um médico ou escritório de um advogado ou de qualquer outro profissional que suou a camisa para conseguir sua profissão vermos estampado na parede o seu diploma como prova do seu conhecimento, como um troféu de sua conquista e lembrança do árduo trabalho para chegar até a sua profissão.

Em Hebreus 11, guardadas as devidas proporções, existe algo semelhante. O autor expõe os grandes heróis da fé, gigantes na experiência com Deus. Todos realizaram feitos fantásticos conforme lemos no versículo 32: “Que mais direi? Não tenho tempo para falar de Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas, os quais pela fé conquistaram reinos, praticaram a justiça, alcançaram o cumprimento de promessas, fecharam a boca de leões, apagaram o poder do fogo e escaparam do fio da espada; da fraqueza tiraram força, tornaram-se poderosos na batalha e puseram em fuga exércitos estrangeiros”. Desses grandes heróis que o autor não tinha tempo para falar há muitas histórias interessantes, dentre elas, quero destacar a história de Gideão e chamá-los para uma breve reflexão.

Depois de derrotar os Midianitas com apenas 300 homens (menos de 1% do exército inicial), sem utilizar a espada (trombetas em uma das mãos e tochas acesas na outra - Juízes 7. 17- 22) os israelitas disseram a Gideão: “Reine sobre nós, você, seu filho e seu neto, pois você nos libertou das mãos de Midiã" (Juízes 8.22). É importante recordar que nunca houvera um rei sobre Israel, apenas Juízes que o Senhor convocava para liderar o povo. Apesar de grande tentação Gideão respondeu de modo enfático "Não reinarei sobre vocês, nem meu filho reinará sobre vocês. O Senhor reinará sobre vocês” (Juízes 8. 23). Quantos teriam pedido um tempo para analisar a situação? Quantos diriam que iriam orar para saber a vontade de Deus? Quantos teriam aceitado prontamente o clamor do povo? Quantos teriam se encantado pela glória do poder e do dinheiro e se rendido ao apelo da nação? E eu como teria reagido? E você?

A sequência do texto nos traz uma surpresa. “Só lhes faço um pedido: que cada um de vocês me dê um brinco da sua parte dos despojo ... Eles responderam: De boa vontade os daremos a você! Gideão usou o ouro para fazer um manto sacerdotal, que ele colocou em sua cidade, em Ofra” (Juízes 8. 24-27). Gideão não queria esquecer a vitória miraculosa que o Senhor lhe conferira, ele não queria esquecer que um dia escutou a voz de Deus, atendeu e o Senhor realizou maravilhas por seu intermédio. Gideão queria um troféu para a sua conquista. Como conseqüência “todo o Israel prostituiu-se, fazendo dele objeto de adoração; e veio a ser uma armadilha para Gideão e sua família” (Juízes 8. 27).

Aquele povo passou a adorar a vitória e não Aquele que concedeu a vitória! Todos os cristãos correm o risco de fazer o mesmo que os contemporâneos de Gideão, ao invés de adorar o Doador da benção, adorar a benção, ao invés de adorar Aquele que deu o talento da música adorar o músico (o artista) ou o pastor bem sucedido ou qualquer outra vitória que venha de Deus!
Oremos para que as palavras do Senhor a Gideão ecoem para sempre em nossos corações “A fim de que Israel não se orgulhe contra mim, dizendo que a sua própria força o libertou” (Juízes 7. 2). Que o Senhor nos ensine a lidar com o sucesso e não permita que o ditado judaico “a alegria é ótima companhia e péssima professora” seja uma realidade nas nossas vidas.