Mostrando postagens com marcador Adoração. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adoração. Mostrar todas as postagens

5.7.11

Modelos novos de #Liturgia2.0

por Marcos Botelho

Nos últimos anos vemos as coisas ao nosso redor mudarem rapidamente, muito mais rápido do que nós estávamos preparados. O que demorava décadas para mudar em uma sociedade, agora em poucos anos, tudo fica diferente.
Isso tem pegado desprevenidos muitos líderes políticos, professores, empresários e pastores, pois perceberam que o jeito que fazíamos antigamente (e dava certo), não é eficaz e eficiente para atingir o objetivo nessa geração.
Assim também aconteceu com a liturgia de nossas igrejas. Lembrando que liturgia é um ato cultural e humano, para através dela, o crente ser inserido na realidade da sua salvação.
As pessoas estão mudando, a cultura está mudando e a liturgia tem que mudar para atingir o seu objetivo.
Nos últimos 15 anos a internet tem moldado o jeito desta geração se relacionar, consumir e aprender. Nesse sentido, pensando em uma nova forma de assimilar e aprender, proponho três modelos de liturgia 2.0 possíveis:
Oval com vários focos (Altas Horas)
O exemplo deste modelo é o programa Altas Horas (antigo Programa Livre).
Uma forma de culto oval e com vários focos supre várias necessidades do processo de aprendizagem dessa geração.
O palco desce e o público sobe, e todos sentam em círculos, proporcionando um sentimento de que aprendemos uns com os outros, olhando nos olhos.
Quando estamos assistindo o programa percebemos que não são os cenários que estão atrás do apresentador ou do entrevistado, e sim a plateia. Nós olhamos para eles e eles estão “olhando” para nós, criando um ambiente de construção coletiva, onde todos podem dar sua opinião, pois perguntas e opiniões são abertas ao público.
Apesar de toda a programação ser baseada em um tema, temos vários entrevistados, diversidade de música e músicos e um dinamismo impressionante onde ninguém fica com o foco (olhar) voltado para o mesmo lugar por mais de 5 minutos, pois de qualquer lugar do ambiente pode estar vindo a próxima atração.
Este formato é dinâmico, interativo, formado no coletivo, e eclético de opiniões.
Os cuidados que os líderes devem ter: dominar o tema que será exposto, pois virão opiniões de todas as perspectivas e, também saber colocar o ensino da bíblia com autoridade, acima das opiniões sem desvalorizá-las.
Informativo e Pessoal (Glocal Mídia)
Um modelo onde a mídia é mais valorizada que nos outros, onde todos tenham uma boa visão de telões gigantes e as cadeiras são móveis (como as de plástico que usamos hoje).
Nesse formato o pregador não tem mais a função de gerar conteúdo, esta função é repassada para os vídeos.
Com isso em cada reunião a igreja poderá ouvir palestras, em 15 minutos, de âmbito global: pregadores do mundo todo (de um bom pregador brasileiro até John Stott legendado), um especialista (um psicólogo, sociólogo, cientista), algo histórico (último discurso de Luther King ou de um pregador que já morreu) e até a opinião de alguém famoso (Bono Vox, Obama, etc.).
Todos estes vídeos são selecionados com antecedência por um colegiado que está pensando na mensagem bíblica que quer passar para a igreja.
Quando o vídeo é de outro pregador, o pregador local tem a função de aplicar a mensagem para os membros da igreja local, mas quando o vídeo é só informativo ele tem a função de expor o que a bíblia fala sobre o assunto e aplicar logo depois.
Lembrando que os vídeos não são pequenos exemplos para apoiar o pregador ou introduzir o assunto. Eles são o assunto (a tese) e o pregador é quem vai dar a opinião bíblica e aplicar em 15 minutos.
No final da mensagem todos podem virar suas cadeiras em pequenos grupos, conversar e orar sobre o assunto.
Este formato destaca um conteúdo global, com aplicações bíblicas e claras para o dia-a-dia e os relacionamentos.
Os cuidados que os líderes devem ter são: não querer gerar mais informação na hora de aplicar, pois esta é a função dos vídeos. Deve tomar cuidado com o tempo, pois o vídeo e a aplicação não devem ultrapassar 30 minutos.
Aplicação em mesa (Lausanne 3)
Neste modelo teremos um palco com várias atividades como louvor, peças, danças, vídeos, testemunhos e pregação.
A grande diferença é que todos estão sentados em mesas e após cada apresentação é dado o mesmo tempo para discutir o que foi visto e o que isso tem a ver com o dia-a-dia de cada um.
Este modelo consegue manter o formato de culto que estamos acostumados, mas a aplicabilidade e os relacionamentos são muito mais fortes, pois as pessoas estão em volta de uma mesa. Teve que alterar também as apresentações, para serem menores e mais precisas.
Foi exatamente assim o congresso mundial de missões em 2010 (Lausanne 3). Colocaram 4.000 pessoas sentadas em mesas, onde os melhores pregadores do mundo dividiram seu tempo com peças, danças, vídeos e músicas.
Os cuidados que os líderes devem ter são: integrar todos os ministérios para que falem a mesma mensagem,  disciplina para serem curtos e profundos, trabalhar para suavizar as transições constantes entre palco e mesa.
Conclusão
Como foi exposto, estes são apenas possíveis modelos, e se você perceber que  mesclá-los será mais útil para o propósito da sua liturgia, em sua cultura local, você tem a obrigação de fazê-lo.

26.3.11

Expressão de louvor

Por Carlos Fernandes

O título desta entrevista é o mesmo de uma das canções mais conhecidas do grupo Logos. Mas também sintetiza parte importante da vida do pastor, cantor e compositor Paulo Cezar da Silva. Aos 60 anos de idade e com mais de trinta de carreira – ou, conforme ele mesmo define, ministério –, Paulo é dos nomes mais conhecidos da música evangélica brasileira, de cuja evolução participa desde os anos 70. Foi naquela época que, ainda aluno do seminário Palavra da Vida, em São Paulo, formou um conjunto musical, já com a presença de Nilma, com quem acabou se casando. A iniciativa entre amigos deu origem, em 1979, ao grupo Elo, que marcou uma geração de crentes. Alguns de seus álbuns, como Calmo, sereno e tranquilo e Ouvi dizer, viraram clássicos, e Paulo Cezar, com sua poesia, uma referência.

A trágica morte do talentoso instrumentista Jayro Gonçalves, o Jayrinho, acarretou o fim do Elo. Mas Paulo quis seguir adiante. “Fui buscar consolo e inspiração na Bíblia”, conta. E foi das Escrituras que surgiu a ideia para batizar o novo grupo. “O nome foi escolhido por significar a palavra viva e por ter tudo a ver com nosso ministério, onde a Bíblia tem centralidade absoluta”, diz o artista. Com o Logos, Paulo Cezar legou ao público cristão 17 álbuns e pérolas como as canções Mão no arado, Portas abertas e Autor da minha fé. Compositor da maioria das músicas do grupo, o artista defende um louvor com conteúdo – coisa que, segundo ele, já não é prioridade. “A falta de conhecimento bíblico e os interesses comerciais estão na base da superficialidade”, resume.

Apesar da já longa jornada, o Logos não está parado no tempo. Com uma formação que vem se renovando ao longo dos anos, o grupo é a base de um ministério evangelístico cuja sede fica em São José dos Campos (SP). O Logos faz pelo menos três grandes viagens por ano, levando não apenas louvor musical, mas evangelismo, edificação espiritual e encorajamento às igrejas. Em janeiro, o Logos esteve na África, em ação missionária. Nesta entrevista a CRISTIANISMO HOJE, Paulo Cezar permitiu-se falar de coração aberto sobre o que pensa acerca da indústria musical, do próprio ministério e da Igreja. E não escondeu: “Sonho com bons músicos, crentes de verdade, que rendam seus talentos ao Senhor e testemunhem com suas vidas o caráter de verdadeiros adoradores.”

CRISTIANISMO HOJE – Você é um dos nomes mais conhecidos da música cristã brasileira, tendo acompanhado de perto sua evolução nos últimos 30 anos. O que mudou para melhor e para pior ao longo desse tempo?
PAULO CEZAR – Para melhor, acho que mudou a qualidade técnica. A evolução dos músicos, dos estúdios, dos instrumentos e do som é perceptível. As chances de alguém gravar e fazer um bom trabalho, hoje, são muito maiores do que antes. O que mudou para pior, com algumas exceções, foi o conteúdo, tanto do que se produz como do objetivo com que se canta. Atualmente, a chamada música evangélica, ou “gospel”, está sendo atacada de todos os lados. O mundanismo tomou o lugar da contextualização. Além disso, vemos a repetição de muitos jargões, palavras de ordem e mensagens de prosperidade.

Por que a música evangélica de hoje carece de conteúdo?
As músicas e tais tendências nos conduzem a nomes, mas eu não quero, de modo algum, reconhecer ou classificar adoradores. Afinal, se Deus os procura, quem sou eu para achá-los? Mas creio que as letras são escritas de acordo com várias influências. O conhecimento é um desses aspectos, e é importantíssimo. Ninguém, mesmo que queira, poderá escrever sobre o que não sabe. A falta de conhecimento ressalta a superficialidade e o apelo emocional. Em outras palavras, um compositor ou pregador superficial ficará contente diante de pessoas chorando no altar ou mãos erguidas no auditório – mesmo que os ouvintes não sejam salvos ou que seu caráter não seja mudado nos dias que se seguem. Outro aspecto é a razão. Responder conscientemente ao motivo pelo que se compõe é determinante para quem o faz. E isso é que faz toda a diferença!

Mas essa contextualização é boa ou não?
Acredito que essa tal contextualização tem levado compositores, escritores e pregadores a compor, escrever e dizer o que seus “clientes” gostam, e não o que precisam. Eles não percebem que, agindo assim, perdem a inspiração divina e a própria criatividade.

Ainda existe espaço para grupos de louvor com visão missionária, como Logos e Vencedores por Cristo?
Com toda certeza, ainda existe sim. O Senhor nos tem aberto portas em muitas denominações. Fazemos três grandes viagens todo ano, cada uma com duração de dois meses e meio, nas quais visitamos as igrejas diariamente. Nosso trabalho é evangelístico – e o que queremos é anunciar o Evangelho de forma séria, através de boa música e de mensagens claras e objetivas.

Como foi a viagem à África e como você avalia a realidade espiritual de lá?
Fomos convidados a participar de uma conferência para missionários brasileiros em Dakar, no Senegal. Resolvemos aproveitar a oportunidade para visitar também Guiné Bissau. Nos dois países, estivemos em igrejas, escolas e agências missionárias.  Os missionários brasileiros que atuam lá choraram ao ouvir as músicas que foram usadas por Deus no seu próprio chamado ou em momentos marcantes de seu ministério. A rea­lidade espiritual é a de um povo oprimido pela religiosidade. A tradição familiar é muito forte; ela tira a individualidade das pessoas, tornando muito difícil a absorção do Evangelho. Afinal, a Palavra de Deus apresenta uma nova tomada de posição espiritual. E uma mudança religiosa significa rompimento direto, não só com a religião predominante, mas, sobretudo, com a própria família.

O que você e o ministério Logos têm feito no sentido de dar contemporaneidade ao seu trabalho, evitando parar no tempo?
Bem, emprimeiro lugar, temos seguido o exemplo da Bíblia, nunca mudando a essência do que fomos chamados a ser e a fazer. Temos também procurado usar os instrumentos modernos em nossa música. Ao dizer isso refiro-me tanto aos instrumentos que são pessoas, quanto aos instrumentos que são coisas; porém, sempre tomando o cuidado de não permitir que um ou outro assuma o centro das atenções. Estamos conscientes de que, quando a performance ofusca o brilho do conteúdo, só resultados superficiais são colhidos.

Quais são os artistas que hoje atuam e que chamam sua atenção positivamente pela postura e pelo ministério?
Há vários adoradores no meio artístico. Eu prefiro não citar nomes para evitar injustiças, mas resumo minha resposta afirmando que os que chamam a minha atenção são aqueles que têm um compromisso verdadeiro com o Senhor e fazem de suas vidas a maior expressão daquilo que pregam.

É correto alguém dizer que a música é um ministério? Qual seria a base bíblica para tal afirmação?
Vivemos dias em que as nomenclaturas fazem parte de um complexo esquema organizacional. Não creio que isso, em si, seja mau. E é verdade que cada crente tem que achar o seu lugar funcional na obra. Mas a incompreensão do uso de um ministério pode trazer orgulho ou desajuste na função de alguns. A Palavra de Deus nos ensina sobre dons, serviços e ministérios. Entendo que existe aí uma sequência lógica, onde o dom é a capacidade espiritual que o Senhor dá a cada um, segundo o seu propósito, como, por exemplo, a misericórdia. Já o serviço é o meio pelo qual aquele dom é manifesto, como o diaconato. E o ministério é o que é executado no final dessa sequência. Quando isso é entendido, os ministérios voltam ao seu lugar de trabalho, perdendo a característica perigosa de ostentação.

E quando esse entendimento é jogado para escanteio em nome do mercado?
Se eu não tivesse certeza de que este veículo de comunicação circula na Igreja, pularia esta pergunta. Testemunhar de coisas que não são boas não me traz alegria. Acho que as coisas ruins que eu tenho testemunhado são frutos de falsas conversões e de distorções daquilo que alguns chamam de “ministério”: A ganância por posição, popularidade, fama e dinheiro é absolutamente antagônicos ao caráter do Reino de Deus e em momento algum reflete o ministério daquele em quem nos espelhamos, Jesus. Quando sei dos valores que alguns “homens de Deus” cobram para fazer algo “em nome de Jesus,” sinto-me enojado. Não fora minha consciência de ministério, eu me sentiria ultrajado como servo. Mas isso também não me surpreende; a Bíblia está repleta de admoestações relativas a esse tipo de pessoas. Muitos se escandalizam por um político que esconde dinheiro nas meias, não é? Pois isso é muito pouco diante de “servos” que o escondem no coração.

Com a decadência da indústria fonográfica gospel, qual o panorama que se desenha para o futuro? As grandes gravadoras e grupos do segmento estão com os dias contados?
Depende. Acho que, pela ordem natural das coisas, tanto a indústria como o comércio fonográfico terão que fazer adaptações severas. Alguns conseguirão sobreviver; outros, não. O uso da tecnologia moderna é um fator básico do desenvolvimento. As indústrias correrão sempre nessa direção e farão as adaptações necessárias para driblar a crise, abrindo assim um novo cenário. Creio ainda que, diante do mercado paralelo crescente – a pirataria – e com o advento da internet, os valores e condições de pagamento dos produtos dessa indústria se ajustarão a um modo cada vez mais pessoal, fácil e ágil, que satisfaça perfeitamente ao cliente. Isso acabará resultando em maior consumo.

Você tem uma postura crítica em relação à apropriação comercial da música evangélica, particularmente por parte das grandes gravadoras do segmento?
Não sou contrário a essa apropriação da música em si, porque os direitos de um contrato são mantidos por lei. Minhas críticas são por outros motivos. Tenho certeza de que a parte comercial de uma gravadora – evangélica ou não – sempre dará prioridade ao lucro. É o lucro que a fará conquistar o mercado, e por causa disso a visão ministerial, ainda que exista, será considerada em um plano inferior. Não vejo problema em que se venda a Bíblia no bar da esquina. Ora, qualquer um pode vender o que quiser; a diferença, para mim, está só na razão pela qual se faz isso. E é aqui que eu vejo o problema mais sério, quando o conteúdo de uma música realmente cristã não é o produto desejado para ser difundido pelas gravadoras chamadas evangélicas. Vale qualquer coisa, desde que resulte em grana!  Então eu pergunto: Onde está a visão do Reino nesse negócio?

O Logos teve uma passagem pela Line Records, gravadora ligada à Igreja Universal do Reino de Deus. O que representou para você aquela experiência?
Quanto à Line Records, sempre tive e tenho por ela profundo respeito. Nunca o Logos foi destratado ali e não há nada pendente em relação ao contrato que fizemos, que foi de distribuição. Tanto, que a previsão do contrato era de dois anos, mas nossa relação perdurou por mais quatro anos além do que foi assinado. Aqui, preciso ressaltar que, embora pessoalmente, discorde de certas práticas e costumes da Igreja Universal – algo, aliás, nunca escondido e respeitado em nosso relacionamento –, reconheço que eles foram sérios conosco, e somos gratos por isso. 

Se uma grande gravadora propusesse hoje ao Logos um contrato vantajoso, qual seria sua resposta?
Olha, se uma gravadora vir o Logos como um grupo sério e maduro, que goza de respeito e aceitação por parte de várias denominações em todo país, não haverá impedimentos para uma aproximação. Temos princípios, mas nunca estamos fechados a contratos se a visão do contratante for de fato, ministerial, independentemente da competitividade artística do momento.

Como está a situação do ministério em termos de viabilidade financeira?
Bem, somos uma missão, e realmente sem fins lucrativos. Isso significa que sempre estamos com nossas contas em dia e nunca temos recursos antes de projetos. Funciona assim: temos projetos antes de recursos. Mas não estranho isso; acho que é coisa de Jesus, mesmo... Aprendemos com ele a ver pães e peixes serem multiplicados. Então, quando saímos, fazemo-lo como trabalhadores que o representam, e não como artistas e empresários.

Como é o seu processo de composição?
Eu componho após pensar: pensar na minha própria vida, na vida das pessoas, nas necessidades; e sempre trago essas coisas diante da Palavra de Deus, que me diz o que fazer, ou como ir adiante. Evidentemente que os talentos natos vindos do Senhor afloram e a excelência de quem quer adorar não permite a futilidade. Sei que, se eu for superficial e não verdadeiro, os resultados do que estou compondo serão também assim.

É dif´cil conciliar essa busca por autenticidade com a necessidade de vender CDs?
Veja, o comércio não é pecaminoso, como também o dinheiro não é. O que faço com ele é o que me diferencia. Não componho para ganhar dinheiro, mas sei que vender os trabalhos é o modo de fazê-los chegar a quem preciso atingir. Sabemos que o trabalhador é digno de seu salário. Não é pecado ser bem remunerado. As pessoas pagam entradas para assistir jogos de futebol, peças de teatro e filmes no cinema. Nada mais justo do que remunerar o artista segundo a arrecadação que ele mesmo produz. Mas fazer missões é outra coisa!

Na sua opinião, é lícito ao músico cristão tocar profissionalmente fora da igreja? Isso não seria desvirtuar o talento dado por Deus?
Vamos por partes. Primeiro, é preciso compreender que a música é um talento, e não um dom espiritual. Como talento, ela não é santa em si mesma. Há coisas lindas compostas por artistas descrentes. Depois, é preciso pensar que a música é também uma profissão artística reconhecida em todo mundo; portanto, qualquer pessoa que tenha esse talento pode exercer essa profissão, sendo crente ou não. Há, entretanto duas grandes observações aqui. A primeira é que o músico crente, como qualquer outro profissional que conhece Jesus, tem que ter a sua vida santificada ao Senhor. Isso implica no seu testemunho comum de crente e na santificação de seu caráter de forma geral. Então, se ele cantava palavrões ou obscenidades quando não era crente, agora, com Cristo, terá de mudar essas coisas. A outra observação tem mais a ver com o chamado ministerial, e creio ser este o ponto mais importante. Se um músico, após a sua conversão, receber de Deus um chamado de dedicação total à obra e atendê-lo, então, também como qualquer outro profissional, estará à disposição do Senhor para servi-lo e por ele ser sustentado, não mais como um artista lá fora, mas como um servo no lugar onde estiver servindo.

É cada vez mais comum músicos populares no segmento secular dizerem-se convertidos ao Evangelho, logo engatando uma carreira art´stica entre os crentes. Qual o resultado disso?
Se forem verdadeiramente convertidos pelo Espírito Santo, e, como consequência disso, deixarem-se discipular como qualquer outro pecador rendido ao senhorio de Cristo, poderão ser usados pelo Senhor, a despeito do que foram ou fizeram. Se assim não for, será simplesmente uma troca de posicionamento profissional.

Por outro lado, gravadoras seculares andam de olho e até contratando nomes mais expressivos do gospel nacional. Como um músico evangélico deve se comportar diante de uma proposta como essa?
Para qualquer músico eu diria que, caso a proposta seja boa, agarre-a com todas as suas forças. Mas, se o músico em questão for um crente verdadeiro, ele deve saber aproveitar a oportunidade, mas nunca negociando seus reais valores.

Sem uma igreja ou ministério provendo sustento, e sem pagar “jabá”, o grupo Logos ainda toca em rádios?
Acho que sim. Deus é fiel, não é? Ele nos deixaria viver para pregar para paredes? Acho que não! Então, nossa música será ouvida até que ele queira, mesmo que já não estejamos mais aqui.

Autor da minha fé é uma das composições mais conhecidas de seu repertório. A letra fala sobre a segunda vinda de Cristo, tema meio esquecido ultimamente. Você acha que a música evangélica no Brasil perdeu seu papel profético?
Não posso generalizar o que acontece nos púlpitos, até porque, devido ao trabalho de viagens evangelísticas, estou mais tempo pregando do que ouvindo pregações. Mas, com certeza, reconheço que o assunto não figura entre os temas mais abordados.

Como você vê a formação musical nas igrejas e nos seminários?
Há várias igrejas que estão trabalhando isso. Conheço também algumas escolas voltadas nessa direção. No seminário onde estudei, embora não se tenha, especificamente, ensinado sobre os temas louvor e adoração, recebi as bases para ser um verdadeiro adorador.  E é isso que, desde então, tenho procurando ser. Mas o que tenho constatado é que a dificuldade maior hoje não está em treinar musicalmente os alunos, capacitando-os e ensinando-lhes posturas de um ministro de louvor. O problema é quais são seus modelos. Certamente, o que esses alunos considerariam como referência seriam aqueles que estão na mídia, fazendo shows. Eles desejariam imitar seus gestos, seus jargões, seu tipo de música e até suas roupas.  Assim, se tivéssemos que prepará-los de acordo com a modernidade do ministério, teríamos que ensinar-lhes matérias como presença de palco, expressão corporal, vestuário artístico e um vocabulário de palavras de ordem, além de estimulá-los a moldar suas músicas ao que está “rolando” hoje. Mas é disso que a Igreja está precisando ou é isso que a está afastando cada vez mais do genuíno papel da música evangélica?

Você já disse em várias ocasiões que é contra a cobrança de cachês por cantores evangélicos. Como o ministério Logos se sustenta financeiramente?
O Logos nunca cobrou cachê, e por princípio nunca o fará. Em todos esses anos de trabalho, sempre usamos o bom senso para termos as necessidades da missão supridas, sem colocar uma corda no pescoço de ninguém. Todos os pastores que nos conhecem, no Brasil ou fora dele, recebem o Logos com confiança. O que praticamos é uma taxa chamada de manutenção que qualquer igreja pode absorver. Ela cobre gastos com as viagens, que fazemos a bordo do nosso ônibus, com toda a equipe e equipamentos, aos lugares mais remotos do país.

O que você acha que deve acontecer com a música evangélica brasileira daqui para a frente?
Não quero responder com pensamentos previsíveis, mas com desejos de alma. Eu sonho com uma música diversificada em estilos e mensagens, que atenda as reais necessidades das igrejas. Sonho com bons músicos, crentes de verdade, que rendam seus talentos ao Senhor e testemunhem com suas vidas o caráter de verdadeiros adoradores. E, finalizando, sonho com uma Igreja que permaneça fiel diante dos modismos sufocantes da falsa contextualização.

Fonte: http://www.cristianismohoje.com.br/interna.php?subcanal=26&id_conteudo=99

14.3.11

ADORAÇÃO OU DESPERDÍCIO?

Em A arte e a Bíblia, Francis Schaeffer (1912-1984) disse que “os cristãos não devem se sentir ameaçados pela fantasia e a imaginação. Pelo contrário, os cristãos devem desenvolver a capacidade de, através da imaginação, voar além das estrelas”.

É muito estarrecedora a incapacidade que temos de dialogar com a cultura pós-literária. Temos muita gente lidando com palavras, mas infelizmente pouquíssimos heróis trabalhando com imagens. Seria essa nossa fraqueza uma consequência remota de nossa tradição protestante iconoclasta?

O pastor e ativista social Erwin McManus diz que “orientar a igreja de tal forma que ela se torne uma comunidade inteiramente orientada pelo texto impresso é uma sentença de morte. As pessoas simplesmente não leem”. Vou logo dizendo que não sou contra a cultura do livro e sim contra a ideia de que o livro é o único recurso útil para expressar o pensamento ou uma ideia. Por isso, acredito que é urgentemente necessário desenvolvermos a arte de capturar e produzir imagens que comuniquem as verdades do Evangelho em nosso contexto.

Porém, acredito que, para realizar tal proeza, seja necessário dilatarmos o nosso conceito de adoração, orientado exclusivamente para a música e o ensino da palavra. Você já parou para pensar que a moçada pós-literária, universitária, e que ainda está presente em nossas igrejas, só tem dois espaços para participar da liturgia? Os caras ou podem cantar e tocar ou pregar. Nada mais que isso!

Pois é, nosso conceito de adoração precisa ser dilatado o quanto antes para o uso da escultura, da pintura, do cinema... Mas para que isso aconteça, precisamos ultrapassar duas dificuldades. De um lado, a cultura de massa, de entretenimento, que é meramente consumista e individualista; e, do outro, a cultura da justa “luta pelo pobre”, que por razões aparentemente coerentes vê nas artes o diletantismo de uma sociedade do desperdício.

Veja, alguém poderia muito bem dizer: “tem muita gente morrendo de fome para que a igreja fique preocupada com a arquitetura de seus templos e a arte de suas liturgias!” Quem de nós nunca ouviu esse discurso? O próprio Jesus ouviu algo assim quando um de seus discípulos resmungou porque uma mulher havia derramado um bálsamo caríssimo sobre sua cabeça: “Para que este desperdício?”, disse o discípulo, “Este perfume poderia ser vendido por muito dinheiro e dar-se aos pobres”. Porém, não podemos nos esquecer do que disse Jesus, logo em seguida: “Ela praticou boa ação para comigo... Onde for pregado em todo mundo este evangelho, será também contado o que ela fez” (Mt 26.7-13).

É isso. Até breve!

Fonte: Blog do Jonas - http://jonasmadureira.blogspot.com/2010/06/adoracao-ou-desperdicio.html

13.3.11

A arte de adorar

Por Volney Faustini

Em sua quarta viagem ao Brasil, Rory Noland já sente-se à vontade por aqui. Sinal disso é que encontrou a reportagem de CRISTIANISMO HOJE vestindo jeans e tênis, no meio de uma maratona de eventos e congressos de que veio participar em São Paulo. O assunto da conversa, evidentemente, seria arte e adoração, assuntos nos quais ele é uma espécie de PhD sem diploma. E nem precisa. Graduado pelo Chicago Musical College, da Universidade de Roosevelt, Noland é músico, compositor, palestrante, conselheiro e pastor nos Estados Unidos. Durante vinte anos, ao lado do pastor Bill Hybels, capitaneou as atividades musicais na Willow Creek Community Church, no Illinois, igreja que é considerada referência em todo o mundo. Foi ele que ajudou a introduzir práticas e comportamentos que se tornaram referência na atividade musical das igrejas. Inclusive, e principalmente, a preocupação com o caráter e a espiritualidade do artista cristão.

Atualmente, Rory Noland dirige o ministério Hearth of the Artist (Coração do Artista). Uma de suas principais atividades ministeriais é a organização de retiros temáticos cujo objetivo, entre outros, é contornar o aparente paradoxo entre fé e as artes. “A arte traz luz, criatividade, energia, comunicando de diferentes maneiras o que a palavra falada não consegue transmitir”, defende o pastor. É verdade que elas vêm quebrando barreiras e ganhando espaço no meio evangélico. Permanecem, contudo, alguns pudores, inclusive por causa de certas particularidades dos artistas, como a vaidade. Mas Noland quer mostrar que é perfeitamente possível ao artista cristão dar vazão ao seu talento e, ao mesmo tempo, manter em alta a sua comunhão com Deus. É isso que ele diz em seus livros, como O coração do artista e O artista adorador (Editora W4). “O artista está mais na vitrine do que as pessoas que exercem outros ministérios na igreja”, comenta. “Por isso, é preciso dar mais atenção à alma do que à arte”, aconselha.

CRISTIANISMO HOJE – Ultimamente, as igrejas evangélicas estão mais abertas a manifestações artísticas.  As resistências do passado foram contornadas?
RORY NOLAND – Os pastores e os crentes em geral estão mais abertos, sim. Eles perceberam o quão válido é usar as artes para levar as pessoas às igrejas e também como expressão de louvor ao Senhor. Contudo, ainda há muita resistência. Eu diria então aos pastores: não tenham medo de abrir a sua igreja para mais artistas. Vai ser desafiador, às vezes? Sim. O temperamento do artista algumas vezes é complicado? Sim. Mas, trabalhar juntos pelo Reino de Deus é possível, e essa unidade potencializa os ministérios de cada um. Há uma riqueza quando os pastores e os artistas se juntam. Deve-se deixar para trás qualquer tipo de bloqueio ou estereótipo. A arte traz luz, criatividade, energia e novidade para o culto, comunicando de diferentes maneiras o que a palavra falada não consegue transmitir. É preciso levar em conta que as artes não falam só ao coração, mas à mente, também.

De que maneira o crente pode se utilizar das artes?
As artes podem ser usadas para muito mais do que adoração e evangelismo. Elas podem ser usadas, por exemplo, para ensinar. Tome por exemplo os hinos Wesley e outros compositores cristãos. Eles são ricos em doutrinas. Os vitrais nas janelas dos templos, com os ícones desenhados representando histórias bíblicas, também trazem verdades teológicas. A apreciação pura e simples das artes como forma de se conectar com o sagrado às vezes acontece, e às vezes, não. Podemos supor que apreciar a arte pode nos levar para mais perto do Senhor, desde que estejamos abertos para tal. As artes sempre lidam com os temas reais da vida, de maneira que ultrapassa a mera superficialidade – e, portanto, levanta questões espirituais cujas respostas só serão encontradas em Jesus Cristo. Então, Deus pode usar as artes de maneira poderosa para o seu Reino.

Quais devem ser as características perseguidas pelo artista cristão?
Primeiramente, a humildade. Em Filipenses 2.13, lemos que nada deve ser feito por alguém por partidarismo ou interesse próprio, mas sim, por humildade, “considerando os outros como superiores a si mesmo”. O foco deve ser servir. João Batista disse a respeito de Jesus: “Importa que eu diminua e que ele cresça”. Esse é o tipo de atitude que o artista cristão deve ter em tudo o que faz. No livro de Neemias, vemos que os músicos eram encarregados também da manutenção na casa do Senhor. Havia uma razão para isso: era importante que eles aprendessem a humildade através do serviço aos outros. A ideia da humildade e do serviço ao próximo é encontrada o tempo todo na Palavra de Deus.

O senhor já teve dificuldades nessa área?
Certa vez, quando eu tinha 21 anos de idade, alguém chegou para mim e me disse: “Você é muito sensível. Estamos quase sempre como que pisando em ovos quando você está com a gente”. Eu sequer suspeitava disso, mas tinha mesmo um temperamento difícil e até chegava a ser agressivo quando falava. Mas fui confrontado e tive a oportunidade de enxergar minhas falhas e melhorar. Então, fui ao grupo, pedi perdão e disse com sinceridade que não queria mais ser daquele jeito. Dou graças a Deus porque aquela pessoa me considerou o bastante e me amou o suficiente para me confrontar. A humildade implica estar aberto ao feedback de outras pessoas. Isso amadurece o caráter.  Um texto do livro de Provérbios diz que “leais são as feridas de um amigo”. Nosso caráter tem que sempre ser testado. Na sua primeira Epístola a Timóteo, Paulo recomenda a seu discípulo para examinar a si mesmo. E devemos sempre fazer isso diante das Escrituras.

O senhor, juntamente com o pastor Bill Hybels, é um dos fundadores da famosa igreja de Willow Creek. Por quanto tempo o senhor esteve lá e o que fazia naquele ministério?
Eu estive no ministério de Willow Creek por mais de 20 anos e tive muitas atividades ali. Minha responsabilidade central era a de dar direção ao ministério de música, liderar a equipe envolvida e ajudar a articular a visão do ministério nesta área. Como diretor de música, eu dirigia o departamento, e à medida em que esse setor se tornou maior, assim como o número de pessoas, cada vez mais eu ficava nos bastidores e ocupava menos o palco como músico.

Quais são, a seu ver, os principais fatores que fizeram de Willow Creek uma megaigreja de influência mundial?
No início, éramos apenas um grupo de jovens apaixonados pelo evangelismo, Jamais sonhamos que o ministério teria um dia a influência que de fato hoje tem. Então, antes de mais nada, o principal fator foi que Deus nos abençoou. A obra sempre foi dele, e tínhamos clara noção disso. Também é preciso destacar que uma das razões que me faz apontar para o sucesso de Willow Creek é que usamos muito as artes. Naqueles dias, isso foi algo realmente bastante inovador.

Como essas expressões se encaixavam na liturgia?
Tudo era feito em parceria com a mensagem, ou seja, as expressões artísticas apontavam para o conteúdo do sermão que seria pregado. Apesar de gostarmos da variedade, basicamente, na primeira meia hora, tínhamos exibições de música, arte e drama – e boa parte disso estava voltado em construir o tema do dia. Depois, Bill subia ao palco e trazia a mensagem. Tudo dependia do objetivo da reunião: evangelismo, santidade, comunhão, oração. Durante a semana, os cultos eram voltados aos crentes. Já nos fins de semana, nosso objetivo era alcançar pessoas com o Evangelho.

Essa diferença de público interferia na programação?
Ah, sim. No caso da música, por exemplo – aos domingos, como havia a presença de muitas pessoas não evangélicas, tínhamos uma música mais contemporânea, com diversos ritmos. Isso envolvia o visitante, empolgando sobretudo os mais jovens. Já nos cultos mais reservados, tocávamos muitos hinos tradicionais.

 Um grupo de jovens tocando hinos tradicionais?
Mas as composições tradicionais são fora de série! Os hinos clássicos têm teologia saudável, forte vínculo com as Escrituras e foram compostos visando a abordar questões importantíssimas para o ser humano. Eles não são daquele tipo “eu”, “mim”, “meu”; ao contrário, trazem conteúdos ricos e encorajadores à fé. Definitivamente, essas composições perduram no tempo.

Artistas têm disciplina?
É, parece que a maioria das pessoas pensa o contrário. Mas, se pensarmos bem, é necessário muita disciplina para que alguém chegue a ser um artista. Praticar, ensaiar, tudo isso consome bastante tempo e restringe o exercício de outras atividades. Portanto, não é justo dizer que o artista não tem disciplina.

O perfeccionismo é uma virtude ou um defeito no contexto da arte cristã?
Falo muito sobre a perfeição, contrapondo-a à excelência. Praticamente, todo artista que conheço tem que saber lidar com o perfeccionismo, que é inerente à sua atividade. É isso que nos torna bons artistas – contudo, se a busca pela perfeição ultrapassar determinados limites, o sujeito pode ficar maluco!

Nas igrejas e ministérios, hoje, fala-se muito em louvor e adoração. A ênfase exagerada na perfeição técnica não pode acabar prejudicando a adoração a Deus propriamente dita?
A adoração tem uma função fundamental: a de transformar o crente. Hoje, mais do que nunca, o louvor está sendo dirigido por times de artistas. Muitos deles são graduados em seminários e escolas bíblicas. E o preparo não termina aí – como eles são chamados a liderar o louvor, é claro que há necessidade de dedicação de tempo para ensaios etc. Aqueles que atuam voluntariamente já têm limitações nisso, mas mesmo assim, precisam se preparar espiritualmente. É aí que entra a adoração pessoal. Ora, você não pode liderar outros, a menos que também possua experiência naquilo. Há situações que são bastante próprias na arte cristã. O artista envolvido no trabalho da igreja, por exemplo: muitas vezes, ele vai ter de lidar com a ciumeira, muito mais do que o professor de Escola Dominical. Quer dizer, o artista está mais na vitrine do que as pessoas que exercem outros ministérios na igreja. Esse é um exemplo em que a construção de um caráter verdadeiramente cristão fará a diferença. Nem todos os artistas têm problemas com a vaidade, mas muitos ficam presos a isso.

Receber dinheiro compromete a visão ministerial do serviço?
No que concerne a remunerar artistas – principalmente músicos, que são em maioria na igreja –, depende da situação. Eu, na maioria dos casos, aconselho a não pagar aos voluntários, porque isso solapa o ministério no sentido de trabalho em equipe. Pagar a alguns e não a outros afeta a moral daqueles que nada recebem. É preciso trabalhar de acordo com a realidade da igreja. As igrejas que não remuneram têm normalmente equipes maiores de artistas. No entanto, se a igreja está pedindo a um artista que dedique horas acima e além do que se espera de voluntários, deve-se oferecer um valor, especialmente se é dessa forma que o artista ganha o seu pão diário. Eu conheço alguns artistas que dedicam tempo integral ou parcial, dão horas e horas de serviço à igreja, abrindo mão de outras atividades ou de seu tempo livre, e não recebem um centavo. Isso também é injusto. As igrejas não devem se aproveitar de seus artistas. Um líder sábio cuidará de cada um em sua equipe e os recompensará também materialmente quando os solicita além de determinado limite. Eu já trabalhei com músicos profissionais que também se voluntariavam regularmente na nossa igreja. Como sinal de minha apreciação ao seu desprendimento constante, eu os contratava para tocar em ocasiões especiais, como no Natal ou na Páscoa.

E quando o talento prevalece sobre a espiritualidade?
A igreja caiu nessa armadilha, pois tem se colocado na posição de atender às necessidades e gostos do artista de maneira excessiva. O artista que se coloca – ou é colocado – na posição de prima donna torna-se um elemento com quem é muito difícil trabalhar, pois não aceita sugestões e nem orientações. Ele vive debaixo da emoção, e embora dê “mancadas” o tempo todo, não sofre disciplina. Acontece que, quando o sujeito é talentoso, temos medo de confrontá-lo, pois pensamos: “E se perdermos essa pessoa, quem vai ocupar o lugar?” Assim, deixamos temos deixado esse tipo de coisa acontecer, o que é péssimo para o ministério e para a igreja.

E como resolver o problema?
A minha regra de ouro é de confrontar essa pessoa. É por isso que o caráter realmente importa. Não aceitaríamos esse tipo de comportamento de pastores ou de nenhum outro líder – então, não devemos aceitar de músicos ou dirigentes de ministérios de arte. E tem outra coisa: caso não haja sentimento de cooperação e genuíno arrependimento no caso de falhas, que se vão! Manter uma pessoa assim no ministério é como deixar um câncer se desenvolver no seio da igreja, especialmente quando trata-se de um líder. Os seguidores absorvem o modelo, e se veem isso acontecendo, vão pensar: “Então, isso é aceito?”. Primeiro, a situação vai afetar o pessoal diretamente envolvido com o ministério, e depois, atingir o restante da igreja.

Que tipo de orientação o senhor daria a cristãos que têm talentos artísticos?
Primeiro, focalize-se na sua arte, na sua escolha. Seja o melhor artista que você pode ser. Seja treinado, obtenha lições, ensaie, dê duro. Não é porque você é cristão que não precisa de dedicação. Coloque o máximo da energia de que você dispõe para tentar ser o melhor artista que você pode ser. E, em segundo lugar, preste atenção às Escrituras e ande com o Senhor. Dê mais atenção à sua alma do que à sua arte – e isso significa entrar na Palavra, ler, orar regularmente, memorizar trechos das Escrituras. Não dependa de seu talento. Enfim, cresça espiritualmente e artisticamente, sem esquecer de submeter-se à liderança de outros.

Fonte: Cristianismo Hoje - http://www.cristianismohoje.com.br/interna.php?subcanal=26&id_conteudo=698

26.2.11

Adoração a quem...?

                                                                                                                                              por Allan Reis

É comum ao entrarmos no consultório de um médico ou escritório de um advogado ou de qualquer outro profissional que suou a camisa para conseguir sua profissão vermos estampado na parede o seu diploma como prova do seu conhecimento, como um troféu de sua conquista e lembrança do árduo trabalho para chegar até a sua profissão.

Em Hebreus 11, guardadas as devidas proporções, existe algo semelhante. O autor expõe os grandes heróis da fé, gigantes na experiência com Deus. Todos realizaram feitos fantásticos conforme lemos no versículo 32: “Que mais direi? Não tenho tempo para falar de Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas, os quais pela fé conquistaram reinos, praticaram a justiça, alcançaram o cumprimento de promessas, fecharam a boca de leões, apagaram o poder do fogo e escaparam do fio da espada; da fraqueza tiraram força, tornaram-se poderosos na batalha e puseram em fuga exércitos estrangeiros”. Desses grandes heróis que o autor não tinha tempo para falar há muitas histórias interessantes, dentre elas, quero destacar a história de Gideão e chamá-los para uma breve reflexão.

Depois de derrotar os Midianitas com apenas 300 homens (menos de 1% do exército inicial), sem utilizar a espada (trombetas em uma das mãos e tochas acesas na outra - Juízes 7. 17- 22) os israelitas disseram a Gideão: “Reine sobre nós, você, seu filho e seu neto, pois você nos libertou das mãos de Midiã" (Juízes 8.22). É importante recordar que nunca houvera um rei sobre Israel, apenas Juízes que o Senhor convocava para liderar o povo. Apesar de grande tentação Gideão respondeu de modo enfático "Não reinarei sobre vocês, nem meu filho reinará sobre vocês. O Senhor reinará sobre vocês” (Juízes 8. 23). Quantos teriam pedido um tempo para analisar a situação? Quantos diriam que iriam orar para saber a vontade de Deus? Quantos teriam aceitado prontamente o clamor do povo? Quantos teriam se encantado pela glória do poder e do dinheiro e se rendido ao apelo da nação? E eu como teria reagido? E você?

A sequência do texto nos traz uma surpresa. “Só lhes faço um pedido: que cada um de vocês me dê um brinco da sua parte dos despojo ... Eles responderam: De boa vontade os daremos a você! Gideão usou o ouro para fazer um manto sacerdotal, que ele colocou em sua cidade, em Ofra” (Juízes 8. 24-27). Gideão não queria esquecer a vitória miraculosa que o Senhor lhe conferira, ele não queria esquecer que um dia escutou a voz de Deus, atendeu e o Senhor realizou maravilhas por seu intermédio. Gideão queria um troféu para a sua conquista. Como conseqüência “todo o Israel prostituiu-se, fazendo dele objeto de adoração; e veio a ser uma armadilha para Gideão e sua família” (Juízes 8. 27).

Aquele povo passou a adorar a vitória e não Aquele que concedeu a vitória! Todos os cristãos correm o risco de fazer o mesmo que os contemporâneos de Gideão, ao invés de adorar o Doador da benção, adorar a benção, ao invés de adorar Aquele que deu o talento da música adorar o músico (o artista) ou o pastor bem sucedido ou qualquer outra vitória que venha de Deus!
Oremos para que as palavras do Senhor a Gideão ecoem para sempre em nossos corações “A fim de que Israel não se orgulhe contra mim, dizendo que a sua própria força o libertou” (Juízes 7. 2). Que o Senhor nos ensine a lidar com o sucesso e não permita que o ditado judaico “a alegria é ótima companhia e péssima professora” seja uma realidade nas nossas vidas.