3.4.16

DEUS NO PRÓXIMO

Em algum momento os israelitas precisaram registrar através da escrita, talvez porque outros povos já tivessem feito a resposta para uma pergunta que paira sobre todas as civilizações: de onde os seres humanos vieram?
 
Recorreram as história que ouviram de seus pais, dos seus avós e demais ancestrais. Através de uma narrativa poética, o texto de Gênesis afirma que Javé, o Deus de Israel, decide criar o ser humano com características suas – imagem e semelhança – e molda a partir do pó, da terra. Ou seja, da  matéria do planeta que habita o ser humano e lhe transmite vida ao soprar sobre este novo ser.
 
A afirmação de que somos feitos de barro, da terra, mostra-nos a condição finita na qual nos constituímos, isto é, matéria bem como  a natureza, colocando-nos numa posição de igualdade e, sobretudo, de cuidadores.
 
Ao dizer que a vida provém de Javé, esta história nos recorda que cada ser humano, ao respirar, está declarando, rememorando, que a divindade está dentro dele.
 
Os cristãos (pequenos Cristos) creem que o pai de Jesus e Javé são o mesmo Deus e ainda que o Cristo é a expressão máxima e mais precisa dEle.
 
Jesus expressa a presença de Deus nos seres humanos não somente por adotar a forma, a matéria e as emoções. Ele opta por estar no meio do povo e não se nega a ter contato, literalmente tocar qualquer pessoa, até mesmo aquelas que eram tratadas pela sociedade como sub-humanas, consideradas indignas até mesmo de conviver com suas famílias.

Imersos em uma cultura que cultua o individualismo, somos tentados,talvez arrastados, a ignorar sem nenhuma crise os exemplo de Jesus. Assim,  como no evangelho, precisamos nos perguntar: quem é o meu próximo?

3.10.15

A Nossa História São As Pessoas

Quais foram as pessoas mais importante na sua vida até aqui?

De modo consciente ou inconsciente de vez em quando nos perguntamos: Quem sou eu? Responder a esta questão é uma tarefa complexa! Paulo Freire afirmava que não somos estamos sendo.

Não há dúvida que somos formados por diversos aspectos e características, ou seja, somos seres biopsicosocialespiritual,tudo ocorrendo ao mesmo tempo. Regidos por uma eterna disputa entre o desejo e  a conduta imposta pela cultura que nos cerca.

Mas, algo é certo nossa história é parte importante da nossa identidade, em outras palavras atualmente somos em maior ou menor grau o resultado da nossa história de vida, ou melhor o que fizemos com ela.

Nossa história só existe por causa de outras pessoas. Não somos a não ser que haja outros por perto, que nos auxiliam, protegem, cuidam, ensinam, escutam e muitas outras coisas.

Apesar de existirmos dentro de uma sociedade onde o individualismo é praticamente uma religião formada por milhões de seguidores fanáticos só somos  a partir das relações que desenvolvemos com os outros, sem estes relacionamentos caminhamos apressadamente para a morte.

Pensando nisto construi uma lista com os nomes das pessoas mais importantes na minha jornada. Com certeza esta lista é incompleta, mas tenho certeza que nela consta uma parte considerável das pessoas com quem me relacionei.

Para cada ano escolhi uma ou mais pessoas que naquele tempo foram fundamentais na minha vivencia. Várias destas pessoas me influenciaram por muito mais que um ano. Algumas não tenho mais contato, porém carrego cada uma no coração e na memória, seus ensinamentos, crenças e histórias de vida continuam a me iluminar.

Ao nomear cada ano com o nome destas pessoas, desejo agradecer pela experiência de conviver com cada uma destas pessoas, aprendendo como encarar esta jornada chamada vida.


1982
1983
1984 Mãe, Pai, Milto, Viti e Tuca
1985
1986

1987 Dona Santina
1988 Heloisa
1989 Professora Marli
1990 Professora Ana Claudia 

1991
1992 Hugo, Glauber e Cleiton
1993

1994 Mari
1995 Dani
1996 Carla
1997 Diola
1998 Professora Jô
1999 Gislene 
2000 Ioná
2001 Pastor José Roberto
2002 Serginho
2003 Dona Antonia
2004 João, Daniel, Glaucia, Keila e Michel
2005 Seu Chico e Dona Terezinha

2006 
2007 Adilson, Fernanda e Mislene
2008

2009 Linda
2010 Henri
2011 Karol
2012 Douglas
2013 Galdino e Livan
2014 Professor Lauri
2015

O vazio em 2015 é um símbolo da contemporaneidade onde as relações são cada vez mais frágeis, otimizadas, escassas de lastro e persistência para a continuidade. Também representa a saudade dos grandes amigos(as) que não tenho mais o privilégio da com vivencia. 

15.4.15

Anotações Sobre Vida Líquida


Nos últimos anos tive contato com a sociologia da religião e diversas vezes ouvi ou li citações do ou sobre o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman e a sua teoria sobre a modernidade líquida. Bauman é um dos grandes intelectuais da contemporaneidade, radicado na Inglaterra, completa em 2015, 90 anos. Recentemente tive finalmente meu primeiro contato com um, dos seus muitos textos, a saber, Vida Líquida, publicado pela Zahar em 2007. Vida líquida é um convite e ao mesmo tempo uma instigação para pensarmos o nosso cotidiano no meio em que vivemos e talvez até uma sugestão para repensarmos o modo como praticamos está jornada chamada vida, realizada sobre o solo da terra junto com a humanidade.
A vida líquida é a vida que acontece em meio a modernidade liquida, ou seja, existimos num tempo marcado por mudanças constantes, numa velocidade distinta daquela experimentada pelos nossos antepassados. O consumismo tem dominando todas as esferas da vida, transformando toda relação, numa relação de compra e venda. Produzindo pessoas individualistas e acuadas pelo medo.  
O texto para quem não está acostumado com a sociologia é sim um pouco pesado, em especial quando ele trabalha sobre a influência da individualização sobre a identidade, mas, não se sinta desmotivado para a leitura. Para refletir sobre a vida é essencial pensar sobre o “ser”, apesar do “ter” ser uma presença constante. Além do que, a escrita de Bauman é carregada, encharcada de metáforas e exemplos do cotidiano, que facilitam e trazem fluidez em diversos trechos e compreensão para alguns aspectos teóricos.
Não se pode deixar de destacar algumas reflexões, que surgem ao longo do texto, de caráter extremamente prático, janelas que iluminam a vivencia. Sobre a gangorra entre os valores “liberdade” e “segurança”, quanto mais se tem um, menos se tem o outro (pp. 12, 23, 39, 44, 50 – 54, 189 – 191).
A cultura da descartabilidade do nosso tempo, que faz com que até os laços de amizade e conjugais sejam de curta duração, deletados como nas redes sociais. A incapacidade do homem ocidental contemporâneo de morrer e lutar por uma causa e de compreender o martírio. O desejo constante da espetacularização e a reverencia as celebridades que tem fim em si mesmas (pp. 67 – 69).
Enquanto lia estas reflexões, tinha a sensação de estar diante de um ancião, um mestre que pacientemente compartilhava comigo as experiências da vida, me dando dicas, atalhos para ler a contemporaneidade. Vários momentos durante a leitura eu não escutava um sociólogo, mas, um profeta. Não utilizo o termo profeta como aquele que prevê o futuro, Bauman fala sobre o hoje, mas nos moldes dos profetas do Antigo Testamento, ou seja, aquele que denúncia: a imparcialidade, o sofrimento, a opressão, a dor desnecessária, a utilização indevida do que deveria ser utilizado para o serviço ao próximo. Sim, sei que também há previsões nos textos do Antigo Testamento e também, reconheço que está interpretação provavelmente esteja marcada pelas minhas leituras de teólogos da libertação. Tenho certeza que você encontrará outras reflexões e outras escutas.     
Criticas? Meu conhecimento em sociologia e minhas leituras em Bauman ainda são muito incipientes para construí-las, mas, elas ainda virão. Concluo com o resumo que o próprio autor faz da sua obra: 

Este livro é uma coletânea de ideias sobre vários aspectos da vida líquida, a vida que se leva em um sociedade líquido-moderna. A coletânea não pretende ser completa. Mas espera-se que cada um dos aspectos analisados ofereça uma janela para a realidade que compartilhamos nos dias de hoje, assim como para as ameaças e possibilidades que essa realidade traz para as perspectivas de tornar o mundo humano um pouco mais hospitaleiro para a humanidade.

Boa leitura, paz e bem!