13.2.14

Como os evangélicos são percebidos!

Eles Gostam de Jesus, Mas não da Igreja[1] do americano Dan Kimball, foi publicado nos E.U.A. em 2007, aqui no Brasil a editora Vida lançou o livro em setembro de 2011.
Kimball, fala, olha e percebe a religiosidade a partir de dentro, ele é um evangelical, conservador, pastor de uma igreja na cidade universitária de Santa Cruz na Califórnia. Conforme as suas palavras: “minhas convicções são fundamentalistas e [...] interpreto a Bíblia literalmente” (KIMBALL, 2011, p. 188).
Apesar de em seu livro conter afirmações como: “Erramos o alvo quando não fazemos parte de sua igreja” (KIMBALL, 2011, p. 57), ou “eu sei não é possível experimentar o corpo de Cristo no isolamento e que abandonar a igreja não é a resposta. Precisamos fazer parte de um corpo local” (KIMBALL, 2011, p. 224), e ainda “precisamos explicar para aqueles que gostam de Jesus, mas não da igreja, que Jesus ama a igreja e que, se eles verdadeiramente gostam de Jesus, é inevitável que também gostem da igreja, pois ela é a sua noiva. As pessoas precisam da igreja porque ela é a expressão de Jesus como seu corpo (KIMBALL, 2011, p. 252). Porém sua abordagem é distinta daqueles que acreditam que apenas afirmando e reafirmando que a igreja é importante e necessária, irão convencer as pessoas a pertencerem[2].
O livro aqui analisado é o resultado do esforço deste autor, por tentar olhar as igrejas evangélicas a partir dos olhos dos americanos, que não pertencem a ela. Qual a metodologia que foi empregada? Kimball a define assim:

Encontrei a maioria das pessoas que vou citar após ter fugido de meu gabinete na igreja. E não me dispus a fazer proselitismo com elas: simplesmente as encontrei para fazer amizade, desfrutar de sua companhia e pedir suas opiniões. [...] Passei longos períodos ao lado de cada uma delas, fazendo perguntas, ouvindo suas histórias e prestando atenção a sua opiniões. (KIMBALL, 2011, p. 60).

Os entrevistados estão na faixa etária dos vinte ou dos trinta anos. Algumas pessoas foram criadas na igreja e outras nunca tiveram uma relação direta com igrejas evangélicas. O que é comum a todas é o fato de não participar, nem frequentar uma igreja quando das entrevistas, porém elas gostam de Jesus. O autor não informa quantas pessoas entrevistou, mas, há citações de pelos menos doze pessoas diferentes ao longo do texto (KIMBALL, 2011, pp. 60, 61).
Kimball só vai ao encontro destas pessoas, porque antes ele construiu algumas convicções, que não é comum que os evangélicos tenham, são elas:
  • ·       O mundo mudou: “Em uma cultura cada vez mais pós-cristã, as influências e os valores que dão forma às gerações emergentes[3] já não se alinham com o cristianismo. As gerações emergentes não tem uma compreensão básica da história da Bíblia e não vislumbram um Deus como o Deus predominante a ser cultuado” (KIMBALL, 2011, p. 13).
  • ·         A percepção que os americanos possuem dos cristãos é: “covardes, inflamados, intolerantes, acusadores, pertencentes à direita e com interesses políticos próprios” (KIMBALL, 2011, p. 30).
  • ·         Os evangélicos vivem dentro de uma bolha cristã. Estão sempre atarefados com atividades da igreja. Consomem seus próprios produtos como livros, roupas, adesivos, congressos, dentre outras coisa (tão consumistas como qualquer outra pessoa). Constroem relações de amizades, somente com outros evangélicos (KIMBALL, 2011, pp.11, 38 - 40).
  • ·         As pessoas gostam de Jesus, apesar de não frequentarem uma igreja evangélica (KIMBALL, 2011, pp. 48 – 58).
Através do contato com os jovens, não evangélicos, o autor admite que no mínimo seis críticas destes jovens devam ser levadas em consideração, são elas: 
1) A igreja é uma religião organizada com interesses políticos próprios. 
2) A igreja é intolerante e negativista. 
3) A igreja é dominada pelos homens e oprime as mulheres. 
4) A igreja é homofóbica. 
5) A igreja é arrogante ao afirmar que todas as outras religiões estão erradas. 
6) A igreja está cheia de fundamentalistas que levam a Bíblia ao pé da letra.
Em cada um(a) destes(as) pensamentos/críticas dos não evangélicos, Kimball admite o porque eles pensam desta maneira e em seguida apresenta uma defesa e um modo de explicar o modo de ser da igreja.
A preocupação e a abordagem, que Kimball realiza é missiológica. Ele realmente está convicto da necessidade de se escutar os não cristãos e que “em alguns casos precisaremos desculpar-nos com as pessoas por como a igreja tem agido” (KIMBALL, 2011, p. 68). 
Por ser missiológica admiti-se que “as coisas mudaram, e precisamos pensar da perspectiva das gerações emergentes se quisermos compreendê-las e comunicar-nos com elas” (KIMBALL, 2011, p. 149). Ou seja, para comunicar é preciso sair da bolha e primeiramente ouvir, aprender, pedir desculpas, se relacionar e depois se for possível falar.




[1] Para Kimball, igreja é igual ao campo religioso evangélico, portanto durante a análise de seu livro, está será a utilização do termo.
[2] Exemplos desta abordagem são os livros: Dê Outra Chance à Igreja de Todd Hunter, Os Sem-Igreja de Nelson Bom Milcar, Igreja. Acabou? de Israel Belo de Azevedo dentre outros.
[3] O que o autor chama de emergentes, também pode estar fazendo referência a contemporâneos ou pós-modernos.

28.11.12

O ambiente humano

por Marina Silva


O Brasil passou a última semana de janeiro vendo escombros em reportagens televisivas sobre o resgate das vítimas do desabamento dos três prédios no centro da cidade do Rio de Janeiro. Além de sofrermos com as famílias e torcermos por um final feliz para cada espera, perguntamos, em escala nacional, qual seria a causa da tragédia. Aos poucos a causa foi ficando clara, pois nenhum fenômeno natural estava em sua raiz. Não foi desabamento por chuvas nem movimento de terras subterrâneas. O colapso da estrutura de um dos prédios, provocado por falha humana, era a explicação.

No mesmo período vimos outras imagens de escombros. Dessa vez, nas notícias sobre a ação do governo do estado de São Paulo na desocupação de áreas pertencentes à massa falida da empresa do Grupo Naji Nahas, em Pinheirinho, São José dos Campos. Seis mil pessoas foram desalojadas pela polícia. Máquinas destruíram casas sem que seus moradores pudessem retirar delas um garfo sequer, deixando atrás de si destruição, desolamento, pedaços estraçalhados de bens. De novo a causa não foi ventania, furacão ou outra razão natural, mas a atuação de instituições oficiais.
De tais escombros se eleva uma mensagem, uma reflexão. O Salmo 115.16 diz que Deus nos deu este planeta. No-lo deu pleno de vida (Gn 1.22) e de recursos para satisfazer nossas necessidades (Gn 1.29-30) e encarregou-nos de cuidar dele (Gn 2.15). Fez-nos corpo e espírito (Gn 2.7), portanto, com capacidade criativa, que nos permite criar sobre e com a criação. Assim, temos no planeta o ambiente natural e aquele que brotou dos artifícios humanos. Estes os cientistas chamam de cultura material. Quanto a eles, temos a seguinte recomendação: “Quando edificares uma casa nova, farás um parapeito, no eirado, para que não ponhas culpa de sangue na tua casa, se alguém de algum modo cair dela” (Dt 22.8).
Os primeiros escombros revelam nosso pouco cuidado com o ambiente que produzimos, com as normas técnicas, com a segurança, com a durabilidade do que fazemos. Os segundos, denunciam o pouco cuidado com as pessoas, com seus direitos, com sua felicidade. Falhamos na ética do cuidado na criação de nosso ambiente humano.
Foi um mau começo para o país que vai sediar no Rio de Janeiro, entre 13 e 24 de junho de 2012, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, apelidada de “Rio + 20”. Esse será um grande evento para se falar sobre o cuidado com o planeta, com os recursos naturais e com as pessoas, e para o qual se espera a participação do governo de mais de 100 países, além de membros da sociedade civil. Serão debatidos temas ambientais, como segurança climática, segurança energética, biodiversidade, cidades, água e oceanos. E também temas de natureza técnico-econômica, tais como desenvolvimento sustentável, produção e consumo sustentável, inovação tecnológica para sustentabilidade. O cuidado com as pessoas será expresso em temas como, segurança alimentar, migrações, trabalho decente e erradicação da pobreza.
A ONU se move por valores da civilização humana, por princípios erigidos na convivência laica. Qual não será a responsabilidade dos cristãos, que têm como guia a Bíblia, na qual passagens inteiras nos admoestam e educam quanto ao cuidado? Tomemos esta como exemplo: “Acaso não vos basta pastar os bons pastos, senão que pisais o resto de vossos pastos aos vossos pés? E não vos basta beber as águas claras, senão que sujais o resto com os vossos pés?” (Ez 34.18).
Marina Silva • é professora de história e ex-senadora pelo PV-AC.


Fonte: Revista Ultimato Março-Abril de 2012.

Crise civilizatória


por Marina Silva
 
Estive em Lisboa em outubro de 2011, a convite da Fundação Calouste Gulbenkian, para participar do ciclo de palestras chamado “Ambiente. Por que ler os clássicos?”. Coube-me comentar o texto “Nosso futuro comum”, também chamado Relatório Brundtland, encomendado pela ONU à ex-primeira ministra da Noruega, Gro Brundtland, em 1984. O estudo, concluído em 1987, inspirou vários desdobramentos na governança ambiental global, além de eventos como a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que conhecemos também como Cúpula da Terra ou Rio 92.
 
Passados 24 anos, e às vésperas da Conferência Rio + 20, que será realizada em junho de 2012, vejo, com certa tristeza, que foram muitos os descaminhos. Os alertas e as recomendações feitos no relatório tiveram efeitos, mas não suficientes para que, na primeira década do século seguinte à publicação, estivéssemos em situação menos complicada.
 
Temos um mundo convulso em crises superpostas e uma avaliação equivocada na hierarquização dessas crises. A crise econômica arrasta o sistema financeiro mundial para o colapso. A crise social nos exibe rostos magros de 2 bilhões de pessoas com fome. A crise política, nascida do descolamento entre a representação democrática dos povos e a atuação parlamentar de características corporativistas, denuncia que valores e significados estão sendo perigosamente postos de lado na condução dos interesses públicos. E a crise ambiental, resultante de um modelo de desenvolvimento em que o crescimento econômico não quer ter limites e espolia a base natural de todos os ecossistemas da terra, pode levar à esterilização do planeta pelo aquecimento climático a uma temperatura incompatível com a existência da vida.
 
A humanidade se dedica alegremente ao consumismo, às preocupações de curto prazo, sem pensar nas condições que as futuras gerações terão para viver. 
 
Isso nos leva a identificar outra crise: a da utopia, do sonho de solidariedade, de fraternidade, do planeta pleno de vida. Em Gênesis 1.22 o ato criativo de Deus significa um planeta cheio de vida na terra, nas águas e no ar, com plantas e animais, pássaros e peixes, e o ser humano por fiel guardião de tudo isso. No ano de 2012 da era cristã, essa vida está também ameaçada em todos os quadrantes da terra. Nossos processos institucionais e políticos não zelam pela democracia. Nossos processos produtivos desconhecem a inteligência da engenharia sistêmica de Deus e exploram os bens materiais do planeta até seu esgotamento, gerando poluição e outras disfuncionalidades nos ecossistemas. O fruto do trabalho de nossas mãos no campo visa o lucro, é mal distribuído e não chega às bocas famintas nos países pobres. Nossa infraestrutura cara e mal planejada é ambientalmente inadequada, além de injustiçar os povos que sofrem os impactos sem ter os benefícios. Nosso gigantesco sistema financeiro privatiza os lucros, mas impõe à humanidade os prejuízos de suas operações, resultando em perda de milhões de empregos.
 
As múltiplas crises que constituem a crise civilizatória que vivenciamos exigem de homens e mulheres sentido de urgência e mobilização para o imperativo ético da mudança de atitude que precisaremos ter face à destruição da vida abundante com que Deus agraciou o planeta. Para isso é importante propiciar o necessário encontro entre política e ética, economia e ecologia e, para os que creem no propósito restaurador da obra de Deus, do homem com Deus, consigo mesmo, com os outros homens e com a criação.
 
• Marina Silva é professora de história e ex-senadora pelo PV-AC.

Fonte: Revista Ultimato Janeiro-Fevereiro 2012.