3.4.15

Deus veio a nós!


A vinda tripla de Deus

Não somente no Novo Testamento cristão, mas também o Antigo Testamento judeu está orientado para a vinda de Deus ao seu povo, sua humanidade e sua terra. Se o povo se sente em terra estranha, abandonado por Deus e distante da terra prometida, então grita por ele, como mostram bem as lamentações bíblicas: Levanta-te, Senhor; levanta teu rosto e vem! (cf. Sl 4.6). Se o povo pressente a vinda de Deus, então deve preparar o caminho: “Levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória” (Sl 24.7). Experimenta-se a presença plena do Deus vindouro e então esse povo canta e dança diante dele, glorifica sua beleza.
Os dois Testamentos são testemunhas paralelas da esperança em Deus, assim como Israel e a Igreja são testemunhas da esperança no mundo. Nós vivemos no tempo do advento de Deus. A fé nos permite confiar em Deus e a esperança torna nossos sentidos despertos e alertas para o vindouro. Ele veio na carne, ele vem em Espírito e ele virá em glória.

Deus veio a nós em Jesus Cristo

A esperança cristã futura se fundamenta em uma lembrança histórica segura. Esta é a presencialização do Cristo de Deus, que veio ao nosso mundo. Ele faz de nossa vida a sua própria, transformando assim a terra num lugar de esperança. Tal fato diferencia a esperança cristã de todos os outros sonhos e temores futurísticos que ouvimos com frequência nos últimos dias.
Jesus Cristo se tornou extremamente próximo de mim quando procurei por Deus e não encontrei qualquer resposta. Assim, eu vim a crer em Deus por meio de Jesus Cristo. É por isso verdade quando digo: Sem Cristo, eu teria me tornado ateu. Pois partindo das experiências da história humana ou da contemplação da natureza, eu não teria a ideia que existe um Deus. Mais do que isto, não teria nunca pensado e crido que este Deus é amor e quer o nosso bem. Por causa de Cristo, comecei a crer em Deus. Dito de modo mais exato: Eu comecei a crer no Deus de Jesus Cristo. Este Deus que Jesus chamava de modo tão íntimo de Abba – Pai amado – e do qual anunciava aos pobres a chegada do reino. Sempre que penso em Cristo, sinto a proximidade de Deus e da vastidão de seu reino.
A primeira imagem pela qual fui achado por Cristo foi a imagem daquele que desesperançado, prisioneiro e torturado na cruz dos romanos, gritava por Deus. Eu me senti compreendido por ele como por um amigo que se torna partícipe em nosso destino. Cristo seguiu o caminho do sofrimento e do abandono para procurar pelas pessoas abandonadas e, assim, se tornar irmão delas. Isso me tocou de modo pessoal: Deus abandonou seu Cristo para que Ele viesse ao meu encontro no estado de abandono e me achasse. Descobri, assim, em seu destino, algo que ainda não tinha trabalhado em meu próprio destino. Algo de sua presença em minha própria vida.
Cristo socorre, Cristo salva. Ele não socorre, todavia, por meio de sua supremacia, mas sim, por sua solidariedade conosco em nossa impotência. “Pelas suas pisaduras, fomos sarados” é o que diz o profeta Isaías, referindo-se ao servo sofredor de Deus, o qual deverá redimir o mundo (Is 53.5).
“Somente o Deus que sofre pode socorrer” escreveu Dietrich Bonhoeffer na prisão. Deus socorre – primeiro e sempre – por meio de sua compaixão: “No mais profundo abismo, lá estás também” (Sl 139.8).

Deus veio a nós em Espírito

A esperança cristã do futuro se fundamenta na contemplação de Cristo e na experiência do Espírito vivificante. Nós não apenas relembramos a história de Cristo e esperamos pelo futuro de Deus. Nós já experimentamos também hoje “os poderes do mundo vindouro” (Hb 6.5). Essas são as “energias vitais” do Espírito Santo.
Mas quem é o Espírito Santo? O Espírito Santo é o Espírito da vida que vitaliza todas as coisas por ele tocadas. Ele é presença vital de Deus no mundo. O dom da presença deste Espírito de Deus é o que de maior e mais maravilhoso pode ser experimentado por todas as formas de vida, tanto em âmbito pessoal quanto comunitário. No Espírito Santo, não está presente um tipo qualquer de espírito entre tantos outros, mas Deus mesmo. O Deus vivo que é criador, libertador e salvador.
Onde está o Espírito, ali está Deus de modo especialmente presente. Não em uma forma de onipresença, mas na forma de automanifestação. E onde Deus se manifesta, ali Ele partilha de si mesmo. As energias criativas de sua vida eterna abundam e perpassam nossa vida mortal e a fazem, desde dentro, plenamente viva. Onde quer que sintamos o Espírito de Deus, ali nós experimentamos Deus. Como? Por meio de nossa vida vivida. Nós experimentamos a vida curada e redimida, amada e amável. Não experimentamos a vida apenas como uma nova espiritualidade do coração ou nova teologia da cabeça, mas com todos os nossos sentidos, como uma nova vitalidade da vida. Nós sentimos e degustamos, ouvimos, cheiramos e vemos nossa vida em Deus e Deus em nossa vida, assim como é dito em 1 João 1.1-2:
O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nosso próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna...).
Existem muitos nomes para este Espírito da vida porque existem variadas experiências de vida. Para mim, são os mais lindos os nomes de consolador e fonte de vida.
Na comunhão com Cristo, experimentamos as forças vitais do Espírito divino. Quem se tornou triste e sem participação em nada na vida, quem não sente mais em si qualquer vitalidade, deve se votar para o Cristo e experimentará a nova vitalidade do Espírito de Deus. A meu ver, esta constitui a nova sensualidade (referente aos sentidos) da vida e o vasto âmbito vital de Deus.
Assim como na experiência de uma grande tristeza nossos sentidos se apagam e não podemos mais ver qualquer cor, ouvir nenhum tom e perceber o paladar, parecendo mortos-vivos, assim também se abrem os nossos sentidos novamente quando respiramos o amor de Deus. Nós vemos de novo este mundo multicolorido, nós ouvimos novamente melodias, recuperamos nosso paladar e todos os sentimentos. Somos tomados por uma grande aceitação da vida, aceitação do Espírito vital divino.
Para o desenvolvimento desta nova vida, precisamos de um lugar espaçoso. ”Tu me pões num lugar espaçoso”. Este lugar espaçoso é o presente do Deus infinito, o qual cerca a nossa vida finita (Sl 139.5). A presença divina nos cerca por todos os lados. Isso nos permite desenvolver nossa vida finita para todos os lados. Nós podemos nos movimentar em Deus e Deus morar em nós. Deus não é somente uma pessoa com a qual podemos falar, mas também o espaço no qual podemos desenvolver nossas vidas. Segundo a tradição judaica, um dos nomes de Deus é Makom (espaço). Nós, seres humanos, damo-nos espaço mutuamente sempre que nos abrimos em amor e amizade mútuos e permitimos que os outros seres humanos tomem parte em nossa vida. Sem tal espaço livre na vida comunitária, não existe qualquer liberdade pessoal. O amor dá espaço e tempo para a liberdade. Onde quer que nós experimentemos este espaço livre, ai nós experimentamos a presença de Deus em nós.

Deus veio a nós em Glória

O Deus que nos foi mostrado por Cristo é o “Deus da Esperança”, como Paulo o chama em Romanos 15.13. Deus não é o eterno que está aqui, esteve aqui e aqui estará, mas o Deus que “vem” (Ap 1.4). Ele vem ao nosso encontro desde o seu futuro. Por isso é que o abrangente horizonte do futuro não é algo que se acrescente ao Cristianismo, mas seu elemento constitutivo. Crer significa viver na presença do Cristo ressuscitado e se deixar orientar pelo seu reino vindouro “assim na terra como no céu”. Nós vivemos na expectativa de sua vinda. Nós não aguardamos o seu “retorno”, mas vivemos cada dia na luz de sua vinda. Sobre nós brilha a estrela da promessa. A promessa de Deus é como a aurora que anuncia a chegada de um novo dia: o dia de Deus. “Vai alta a noite, e vem chegando o dia”, assim descreve Paulo a sensação cristã do tempo (Rm 13.12).
Que futuro pode preencher as promessas de Deus, nossas esperanças e as expectativas da terra? Deus vem para morar na terra com os seres humanos. A totalidade da criação se tornará, então, seu templo. O apocalipse descreve isto por meio da imagem da “Jerusalém divina”, a qual desce sobre a terra. Por conta dessa Schechinah de Deus, tudo precisa ser recriado e preparado. Então serão enxugadas todas as lágrimas, o sofrimento e pranto vão passar e a morte não existirá mais (Ap 21.5). Quando o divino estiver em tudo o que é terreno e tudo o que é terreno estiver em todo o divino, então a beleza divina fará todas as coisas resplandecerem. Esta é a plenificação da esperança histórica da humanidade e a consumação da criação. Em seguida, estará tudo criado como foi no princípio: a vida e a luz, as plantas e os animais e também os seres humanos.
Segundo 2 Pedro 3.12, devemos esperar e apressar o futuro de Deus. Isso soa contraditório, mas não o é. Vamos traduzi-lo em nossa experiência e em nossa língua:
Aguardar: é não se conformar às condições de injustiça e não reconhecer as forças daquilo que é factual, pois bem se sabe que alguma coisa melhor pode acontecer e algo diferente está por vir. Aguardar significa nunca se resignar, nem entregar-se a si mesmo. Poder aguardar – isto é uma arte da esperança. Paciência é a virtude da esperança. Aguardar significa viver em ansiosa atenção até a chegada da hora da consumação final. Poder aguardar é também fidelidade ao futuro prometido. “Senhor, Deus nosso, outros senhores têm tido domínio sobre nós; mas graças a ti somente é que louvamos o teu nome”, assim disse o povo de Deus prisioneiro quando do cativeiro babilônico (Is 26.13). E ele sobreviveu. Não existe nenhuma teologia da libertação sem esta teologia do cativeiro, como Rubem Alves notou bem.
Apressar: Aqui, o que se tem em mente é a superação da realidade presente e a antecipação do futuro do novo mundo de Deus, a cada passo e em cada ato nosso. Por meio de cada ato de justiça, preparamos o caminho da nova terra, onde reina a justiça. Faz-se justiça a quem sofre violência e brilha, então, o futuro de Deus em seu mundo. Engajamos-nos em favor de “órfãos e viúvas” e surge, então, um pouco mais de verdade em nosso mundo.
Conforme nós exploramos suas riquezas e forças vitais, a Terra geme com a violência e a injustiça. Ela aguarda por seu direito. Nós nos “apressamos” ao encontro do futuro de Deus quando antecipamos aquela justiça por meio da qual a “nova terra” deve surgir.
Aguardar e apressar: isto significa resistir e antecipar. Com isso, santificamos a vida e nos tornamos seres seguros do futuro de Deus. 

Fonte: Vida, esperança e justiça de Jürgen Moltmann. Editeo, 2008, pp. 12 - 17.




17.3.15

Liberdade e Segurança


A busca de dois valores, liberdade e segurança, ambos amplamente cobiçados, já que indispensáveis a uma vida digna e feliz, converge no atual discurso sobre a identidade. As duas linhas de busca notoriamente se evadem à coordenação, cada qual tende a conduzir a um ponto além daquele em que a outra busca se arrisca a ser travada, interrompida ou mesmo invertida. Embora não se possa conceber uma vida digna ou satisfatória sem uma mistura tanto de liberdade quanto de segurança, dificilmente se consegue um equilíbrio satisfatório entre esses dois valores: se as tentativas do passado, inumeráveis e invariavelmente frustradas, servem para alguma coisa, esse equilíbrio pode muito bem ser inalcançável. Um déficit na segurança repercute na angustiante incerteza (e agora fobia) de que o “excesso de liberdade” – beirando uma permissão para o “tudo é valido” – inevitavelmente será nutrido. Um déficit de liberdade, por outro lado, é vivenciado como um debilitante excesso de segurança (a que os sofredores dão o codinome de “dependência”).
O problema, porém, é que, quando falta segurança, os agentes livres são privados da confiança sem a qual dificilmente se pode exercer a liberdade. Sem uma segunda linha de trincheiras, poucas pessoas a não ser os aventureiros mais ousados têm coragem suficiente para enfrentar os riscos de um futuro desconhecido e incerto. Sem uma rede segura, a maioria se recusará a dançar na corda bamba e se sentirá profundamente infeliz se forçada a fazê-lo contra a vontade.
Quando, por outro lado, o que falta é a liberdade, a segurança parece escravidão ou prisão. Pior ainda, quando se é submetido a essa situação por muito tempo sem intervalo e sem ter experimentado um outro modo de ser, mesmo a prisão pode sufocar o desejo de liberdade, assim como a capacidade de praticá-la, e então se transformar no único hábitat aparentemente natural e habitável – não sendo mais percebida como opressiva. [...]
Qualquer aumento na liberdade pode ser traduzido como um decréscimo na segurança e vice-versa. As duas leituras se justificam, e qual delas se move para o centro da preocupação pública num determinado momento depende de outros fatores além dos elegantes argumentos apresentados para justificar a escolha. Mas as chances de um apoio à mudança no equilíbrio entre liberdade e segurança seriam maiores se a própria escolha fosse um exercício de liberdade. A abertura de perspectivas que um aumento da liberdade poderia trazer dificilmente seria visto como um bom negócio se esse acréscimo resultasse da falta de liberdade – se fosse imposto ou implementado sem consulta. Numerosos resultados de pesquisa confirmam a regra: quando as pessoas se ressentem de mudanças em suas condições de existência ou nas regras do jogo da vida, isso ocorre muito menos pelo desagrado em relação às novas realidades resultantes da mudança do que pela maneira como estas foram produzidas, ou seja, porque foram colocadas em pauta sem que se consultassem as pessoas.                            
Fonte: Livro Vida Líquida do sociólogo Zygmunt Bauman, publicado em 2005, pela editora Jorge Zahar.

5.6.14

CEB: Significante início, triste fim.

                                                                                                            por Vinicius Braga   

   Na década de 1930, o protestantismo brasileiro estava envolvido apenas consigo mesmo. Com caráter somente de combate ao catolicismo, colocava a conversão como um novo modo de vida que excluía a vivência em si de qualquer tipo de expressão cultural do próprio Brasil. Em um país extremamente carente de ser acompanhado em suas transformações sociais, a maioria dos evangélicos revelavam-se indesejosos de acompanha-lo, e assim não demonstravam interesse em suprir as demandas socioculturais emergentes na qual eles também estavam inseridos.

   Mas, na contramão de uma forma de protestantismo banhado pelo individualismo, incutido no brasileiro por estrangeiros colonizadores, e ao denominacionalismo e isolamento evangélico, surge, em 1934, a CEB (Confederação Evangélica do Brasil). Seu primeiro secretário foi Epaminondas Melo Amaral, seguidor dos ideais de Erasmo Braga, e composta inicialmente por cinco igrejas, Congregacional, Presbiteriana do Brasil, Presbiteriana Independente, Episcopal e Metodista, mas que recebeu maior força, em 1959, pela filiação da Igreja Luterana.

   Seguindo os passos de uma América Latina altamente influenciada pela Conferência Missionária do Panamá de 1916, a CEB se formou com o papel de representar o segmento evangélico e formar um órgão cooperativo em vista da construção de uma nova identidade evangélica nacional, bem como a formulação de projetos cooperativos e não mais individualistas.

   Após a Segunda Guerra Mundial, o país inicia um grande crescimento urbano e é movimentados por ideais socialistas, principalmente pela juventude brasileira. Então, as igrejas são envolvidas por esse clima e começam a falar sobre responsabilidade social e a estudar seus reflexos na transformação da sociedade. Assim, a CEB cria vários órgãos importantes. Um deles, o Setor de Responsabilidade Social da Igreja ganha muita importância por se colocar à suprir uma necessidade atual da população colocando a igreja atuando fora de suas paredes.

   Apesar da CEB trabalhar com seriedade, representatividade e pensamento inovador, note-se seu auge na Conferência do Nordeste de 1962, que possuía até mesmo conferencistas não cristãos, ela teve seu fim trágico na ditadura militar. Muitas igrejas que estavam fora da CEB, através de suas cúpulas movidas por uma reação negativa à toda a renovação teológica e pastoral promovidas pela confederação, e com apoio do Golpe Militar de 1964, reassumiram o controle eclesiástico no país através de perseguições aos departamentos da CEB, à professores e alunos dos seminários teológicos e às organizações de juventude. A CEB encerra assim sua real e significativa atuação no Brasil através de “irmãos” colocando seus próprios irmãos na cadeia.


   Fontes:


CUNHA, Magali do Nascimento. Religião e Cultura no Brasil: a Confederação Evangélica, a Conferência do Nordeste. p. 41 – 61

http://alexfajardo.wordpress.com/tag/confederacao-evangelica-brasileira/
http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/323/mais-uma-tentativa-de-unidade-evangelica-brasileira-vale-a-pena