18.5.18

Livro Os Sem igreja: o fenômeno dos evangélicos sem pertença


A Fonte Editorial lançou recentemente (maio/2018) o livro Os Sem igreja: o fenômeno dos evangélicos sem pertença. Abaixo você encontra uma sinopse, um trecho da introdução, o índice completo e informações sobre o autor.

Sinopse:

Em especial no ocidente, as instituições perdem o seu poder de influência. A religião não ficou isenta de participar deste fenô­meno social, apesar de ter ditado o ritmo e o sentido da vida durante muitos séculos.
No Brasil um grupo religioso minoritário os evangélicos, historica­mente tiveram entre as suas principais características a pertença e a parti­cipação dos fieis em uma igreja/instituição.
Na contemporaneidade tem ocorrido um fenômeno novo neste campo religioso; a existência de evangélicos sem vínculo e participação em uma comunidade de fé; neste livro discute-se este processo de desinstitucionalização.
A intenção ao apresentar esta pesquisa é colaborar para a amplia­ção da compreensão deste fenômeno, relatando uma pesquisa de campo com ex-alunos(as) de teologia evangélica que, apesar de terem sido trei­nados para liderar igrejas evangélicas, optaram por não mais pertencer as mesmas. Com este recorte de pesquisa demonstra-se a profundidade do fenômeno.

Trecho da Introdução (p. 14 e 15):

O principal objetivo desta pesquisa foi escutar as motivações e as causas que levaram ex-alunos de teologia, que foram treinados para liderar igrejas evangélicas, a desistirem (em alguns casos) do pastorado e também da própria pertença a uma comunidade de fé evangélica.
O livro esta dividido em três capítulos. O primeiro, Evangélicos sem igreja: estado atual da questão e referenciais teóricos. O segundo, O fenômeno visto de dentro: olhares da literatura evangélica e por fim o terceiro: A narrativa dos sujeitos.
No primeiro capítulo será apresentado o estado atual da questão da desinstitucionalização religiosa. Neste âmbito o foco preferencial se volta para os estudos sobre a persistência da fé e da religiosidade, apesar do en­fraquecimento da influencia das instituições religiosas sobre os indivíduos e da diminuição da pertença religiosa, em especial, no caso do cristianismo.
Esta apresentação é construída a partir da utilização de autores que trabalham conceitualmente e teoricamente o tema da desinstitucionaliza­ção na contemporaneidade e a cerca da secularização na modernidade. Há uma síntese da questão dos sem religião e dos evangélicos não determina­dos, categorias religiosas determinadas pelos Censos do IBGE, que utiliza estas nomenclaturas para identificar uma ausência.
No segundo capítulo busca-se perceber como as literaturas que são consumidas pelos evangélicos retratam o fenômeno, que no meio evan­gélico recebe o nome de “sem igreja” ou “desigrejados”. Para tanto foram analisados catorze livros e quatro artigos. Não há a pretensão, neste capí­tulo, de esgotar esta temática na literatura evangélica, mas, sim sintetizar alguns olhares representativos, para demonstrar a incidência de no míni­mo cinco olhares dentro do corpus aqui exposto.
Os textos foram agrupados em cinco blocos ou grupos. O primeiro abarca livros que consideram a pertença a uma igreja extremamente neces­sária e importante. O segundo olhar traz a questão da desinstitucionalização pelo prisma do fiel, enquanto o terceiro foca o olhar de alguns teólogos evangélicos sobre o fenômeno. O quarto olhar traz uma perspectiva missio­lógica sobre as pessoas sem igreja. Por fim, o quinto olhar procura trazer a voz de pessoas sem igreja, publicados por editoras evangélicas ou não.
O terceiro capítulo relata a pesquisa de campo, realizada com ex­-alunos de teologia que desistiram da pertença numa comunidade de fé evangélica. A pesquisa utilizou como metodologia a historia oral.
“A história Oral privilegia, enfim, a voz dos indivíduos, não apenas dos grandes homens, como tem ocorrido, mas dando a palavra aos esque­cidos ou ‘vencidos’ da história” (FREITAS, 2002, p. 51). Aplicada a esta pesquisa, ela permite àqueles que estão fora das instituições e que optaram pelo silêncio, possam ter voz para narrar às motivações e contingências deste deslocamento em relação às igrejas.
A história oral será utilizada como técnica de escuta, para que da­queles que são sujeitos participantes do fenômeno estudado, surja uma melhor compreensão do processo de desinstitucionalização que ocorre no campo evangélico.
A principal preocupação neste capítulo é expor as motivações, as causas que desencadearam este processo que levou religiosos instituciona­lizados a desistirem da pertença. Ao invés de serem sacerdotes, guardiões das verdades da religião, estão fora e construíram um fortíssimo senso crí­tico das instituições das quais um dia fizeram parte e alguns até lideraram.

Índice:

Introdução | 13

Capítulo 1 - Evangélicos sem igreja: estado atual da questão e referenciais teóricos | 17
1. Desinstitucionalização religiosa | 17
2. Desinstitucionalização religiosa: os sem religião | 22
3. Pesquisas qualitativas recentes sobre os sem religião | 26
4. Evangélicos sem igreja: um fenômeno contemporâneo 30
5. Evangélicos não determinados: alguns números | 36
6. Ferramentas teóricas para auxilio na compreensão deste fenômeno | 39
7. Espiritualidade contemporânea | 44
8. Diferença entre evangélico sem igreja e sem religião | 46
9. Alguns números do Censo 2010 sobre os evangélicos não determinados | 47

Capítulo 2 - O fenômeno visto de dentro: olhares da literatura evangélica | 51
1. A igreja é extremamente necessária e importante | 52
2. A crise do fiel | 62
3. Olhar missiológico | 66
4. Olhares teológicos brasileiros | 71
5. Olhares dos sem igreja | 78
6. Síntese dos olhares, das literaturas evangélicas sobre os sem igreja | 85

Capítulo 3 - A narrativa dos sujeitos | 87
1. Metodologia de coleta das narrativas | 88
2. Os sujeitos das narrativas | 91
3. Eu tentei outra igreja | 94
4. Mantenho minha espiritualidade, minha fé | 97
5. Evangélico(a)? | 102
6. Lideres evangélicos têm um espaço a zelar: sobre as dificuldades com a liderança da igreja | 103
7. O curso de teologia nos abriu os olhos: sobre o conhecimento teológico | 107
8. Cansamos da pregação de benção: sobre a aversão ao neopentecostalismo | 109
9. Incongruências entre o discurso e a prática | 113
10. Na igreja eu penso que as pessoas têm muito ativismo | 115
11. A igreja tem se tornado uma empresa | 118
12. Não tinha uma prática social | 119
13. Outras motivações | 120
14. Mapa das motivações | 121

Conclusão | 123
Bibliografia | 127
Anexo A – Roteiro para realização das entrevistas | 135  

Sobre o autor:

Allan Reis tem 35 anos (atualmente maio de 2018) é casado e pai de um menino. Graduado em Teologia (Betel Brasileiro / UMESP), 2008. Possuí graduação também em Administração de Empresas (UNIESP), 2009. Realizou mestrado em Ciências da Religião (UMESP), 2014. Fez pós graduação latu senso em Planejamento, Implementação e Gestão de EaD (UFF), 2017. Atualmente (2018) cursa graduação em História na USP.

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11.8.17

PATERNIDADE É...

A paternidade provavelmente seja o maior, o mais complexo e enriquecedor desafio que um homem pode impor a si mesmo. A opção pela paternidade é um caminho sem volta que altera a identidade de cada um que decide ou que é escolhido para trilhar esta jornada.
Pai não é progenitor, não, de modo algum, esta é apenas uma função animalesca, o pai também pode ser biológico, mas, esta não é uma conta exata.  
A opção de ser pai é a opção por deixar de ser quem se é para passar a ser uma referência, símbolo mítico para um ou mais seres humanos em formação. O problema da referência é que não temos a menor ideia de como que se faz isto, apenas olhamos para as nossas e somos iluminados pela luz que erradia de cada uma. Passar a iluminar exige que tenhamos luz que brote de quem somos não daquilo que possuímos ou imaginamos ser.
Os filhos convivem tempo demais conosco para conseguirmos fingir ser aquilo que não somos! Como sempre escutei meu pai afirmar: “só doamos aquilo que possuímos”. O tempo sempre revela o nosso caráter.
A paternidade exige a capacidade de suportar a persistente e constante observação de alguém que está a olhar, a encucar, a construir os seus valores, ideias, ideais, crenças, identidade própria...  
                Ser pai é ser um não que quer ser sim. É ter fé que cada não irá brotar e se transformar em diversos aspectos do caráter do seu pequeno. É ter que admitir que em algum momento independente de como a paternidade foi exercida, os filhos farão o seu próprio caminho, concordando ou não, a jornada é deles.
A paternidade é auto sacrifício, há alguém que precisa, que deve vir antes. Ser pai é errar, continuar tentando e errando e tentando, num ciclo quase, apenas quase infinito.
Ser pai é passar pelo ardo processo de resignação de reconhecer que você não entendia o seu pai e pior, ter que admitir que independente do que você faça, assim como você julgou o seu pai, seu filhote um dia será o juiz e você o réu. A condenação é certa.  
Ser pai para aqueles que acreditam em Deus é ter o privilégio de ampliar a compreensão de quem Ele é, apesar de que nossa paternidade jamais será como a dele. Mas, a perseguição da utopia da paternidade divina pode ser o guia para a sublimação dos erros paternos.
Ser pai é acompanhar o desenvolvimento de um novo ser humano que mesmo que não reconheça um dia será arrastado pelo seu exemplo assim como você é arrastado pelo do seu pai.       


Allan Reis out/2015 
(Henri tinha 4 anos e 9 meses)

3.4.16

DEUS NO PRÓXIMO

Em algum momento os israelitas precisaram registrar através da escrita, talvez porque outros povos já tivessem feito a resposta para uma pergunta que paira sobre todas as civilizações: de onde os seres humanos vieram?
 
Recorreram as história que ouviram de seus pais, dos seus avós e demais ancestrais. Através de uma narrativa poética, o texto de Gênesis afirma que Javé, o Deus de Israel, decide criar o ser humano com características suas – imagem e semelhança – e molda a partir do pó, da terra. Ou seja, da  matéria do planeta que habita o ser humano e lhe transmite vida ao soprar sobre este novo ser.
 
A afirmação de que somos feitos de barro, da terra, mostra-nos a condição finita na qual nos constituímos, isto é, matéria bem como  a natureza, colocando-nos numa posição de igualdade e, sobretudo, de cuidadores.
 
Ao dizer que a vida provém de Javé, esta história nos recorda que cada ser humano, ao respirar, está declarando, rememorando, que a divindade está dentro dele.
 
Os cristãos (pequenos Cristos) creem que o pai de Jesus e Javé são o mesmo Deus e ainda que o Cristo é a expressão máxima e mais precisa dEle.
 
Jesus expressa a presença de Deus nos seres humanos não somente por adotar a forma, a matéria e as emoções. Ele opta por estar no meio do povo e não se nega a ter contato, literalmente tocar qualquer pessoa, até mesmo aquelas que eram tratadas pela sociedade como sub-humanas, consideradas indignas até mesmo de conviver com suas famílias.

Imersos em uma cultura que cultua o individualismo, somos tentados,talvez arrastados, a ignorar sem nenhuma crise os exemplo de Jesus. Assim,  como no evangelho, precisamos nos perguntar: quem é o meu próximo?

3.10.15

A Nossa História São As Pessoas

Quais foram as pessoas mais importante na sua vida até aqui?

De modo consciente ou inconsciente de vez em quando nos perguntamos: Quem sou eu? Responder a esta questão é uma tarefa complexa! Paulo Freire afirmava que não somos estamos sendo.

Não há dúvida que somos formados por diversos aspectos e características, ou seja, somos seres biopsicosocialespiritual,tudo ocorrendo ao mesmo tempo. Regidos por uma eterna disputa entre o desejo e  a conduta imposta pela cultura que nos cerca.

Mas, algo é certo nossa história é parte importante da nossa identidade, em outras palavras atualmente somos em maior ou menor grau o resultado da nossa história de vida, ou melhor o que fizemos com ela.

Nossa história só existe por causa de outras pessoas. Não somos a não ser que haja outros por perto, que nos auxiliam, protegem, cuidam, ensinam, escutam e muitas outras coisas.

Apesar de existirmos dentro de uma sociedade onde o individualismo é praticamente uma religião formada por milhões de seguidores fanáticos só somos  a partir das relações que desenvolvemos com os outros, sem estes relacionamentos caminhamos apressadamente para a morte.

Pensando nisto construi uma lista com os nomes das pessoas mais importantes na minha jornada. Com certeza esta lista é incompleta, mas tenho certeza que nela consta uma parte considerável das pessoas com quem me relacionei.

Para cada ano escolhi uma ou mais pessoas que naquele tempo foram fundamentais na minha vivencia. Várias destas pessoas me influenciaram por muito mais que um ano. Algumas não tenho mais contato, porém carrego cada uma no coração e na memória, seus ensinamentos, crenças e histórias de vida continuam a me iluminar.

Ao nomear cada ano com o nome destas pessoas, desejo agradecer pela experiência de conviver com cada uma destas pessoas, aprendendo como encarar esta jornada chamada vida.


1982
1983
1984 Mãe, Pai, Milto, Viti e Tuca
1985
1986

1987 Dona Santina
1988 Heloisa
1989 Professora Marli
1990 Professora Ana Claudia 

1991
1992 Hugo, Glauber e Cleiton
1993

1994 Mari
1995 Dani
1996 Carla
1997 Diola
1998 Professora Jô
1999 Gislene 
2000 Ioná
2001 Pastor José Roberto
2002 Serginho
2003 Dona Antonia
2004 João, Daniel, Glaucia, Keila e Michel
2005 Seu Chico e Dona Terezinha

2006 
2007 Adilson, Fernanda e Mislene
2008

2009 Linda
2010 Henri
2011 Karol
2012 Douglas
2013 Galdino e Livan
2014 Professor Lauri
2015

O vazio em 2015 é um símbolo da contemporaneidade onde as relações são cada vez mais frágeis, otimizadas, escassas de lastro e persistência para a continuidade. Também representa a saudade dos grandes amigos(as) que não tenho mais o privilégio da com vivencia. 

15.4.15

Anotações Sobre Vida Líquida


Nos últimos anos tive contato com a sociologia da religião e diversas vezes ouvi ou li citações do ou sobre o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman e a sua teoria sobre a modernidade líquida. Bauman é um dos grandes intelectuais da contemporaneidade, radicado na Inglaterra, completa em 2015, 90 anos. Recentemente tive finalmente meu primeiro contato com um, dos seus muitos textos, a saber, Vida Líquida, publicado pela Zahar em 2007. Vida líquida é um convite e ao mesmo tempo uma instigação para pensarmos o nosso cotidiano no meio em que vivemos e talvez até uma sugestão para repensarmos o modo como praticamos está jornada chamada vida, realizada sobre o solo da terra junto com a humanidade.
A vida líquida é a vida que acontece em meio a modernidade liquida, ou seja, existimos num tempo marcado por mudanças constantes, numa velocidade distinta daquela experimentada pelos nossos antepassados. O consumismo tem dominando todas as esferas da vida, transformando toda relação, numa relação de compra e venda. Produzindo pessoas individualistas e acuadas pelo medo.  
O texto para quem não está acostumado com a sociologia é sim um pouco pesado, em especial quando ele trabalha sobre a influência da individualização sobre a identidade, mas, não se sinta desmotivado para a leitura. Para refletir sobre a vida é essencial pensar sobre o “ser”, apesar do “ter” ser uma presença constante. Além do que, a escrita de Bauman é carregada, encharcada de metáforas e exemplos do cotidiano, que facilitam e trazem fluidez em diversos trechos e compreensão para alguns aspectos teóricos.
Não se pode deixar de destacar algumas reflexões, que surgem ao longo do texto, de caráter extremamente prático, janelas que iluminam a vivencia. Sobre a gangorra entre os valores “liberdade” e “segurança”, quanto mais se tem um, menos se tem o outro (pp. 12, 23, 39, 44, 50 – 54, 189 – 191).
A cultura da descartabilidade do nosso tempo, que faz com que até os laços de amizade e conjugais sejam de curta duração, deletados como nas redes sociais. A incapacidade do homem ocidental contemporâneo de morrer e lutar por uma causa e de compreender o martírio. O desejo constante da espetacularização e a reverencia as celebridades que tem fim em si mesmas (pp. 67 – 69).
Enquanto lia estas reflexões, tinha a sensação de estar diante de um ancião, um mestre que pacientemente compartilhava comigo as experiências da vida, me dando dicas, atalhos para ler a contemporaneidade. Vários momentos durante a leitura eu não escutava um sociólogo, mas, um profeta. Não utilizo o termo profeta como aquele que prevê o futuro, Bauman fala sobre o hoje, mas nos moldes dos profetas do Antigo Testamento, ou seja, aquele que denúncia: a imparcialidade, o sofrimento, a opressão, a dor desnecessária, a utilização indevida do que deveria ser utilizado para o serviço ao próximo. Sim, sei que também há previsões nos textos do Antigo Testamento e também, reconheço que está interpretação provavelmente esteja marcada pelas minhas leituras de teólogos da libertação. Tenho certeza que você encontrará outras reflexões e outras escutas.     
Criticas? Meu conhecimento em sociologia e minhas leituras em Bauman ainda são muito incipientes para construí-las, mas, elas ainda virão. Concluo com o resumo que o próprio autor faz da sua obra: 

Este livro é uma coletânea de ideias sobre vários aspectos da vida líquida, a vida que se leva em um sociedade líquido-moderna. A coletânea não pretende ser completa. Mas espera-se que cada um dos aspectos analisados ofereça uma janela para a realidade que compartilhamos nos dias de hoje, assim como para as ameaças e possibilidades que essa realidade traz para as perspectivas de tornar o mundo humano um pouco mais hospitaleiro para a humanidade.

Boa leitura, paz e bem!


3.4.15

Deus veio a nós!


A vinda tripla de Deus

Não somente no Novo Testamento cristão, mas também o Antigo Testamento judeu está orientado para a vinda de Deus ao seu povo, sua humanidade e sua terra. Se o povo se sente em terra estranha, abandonado por Deus e distante da terra prometida, então grita por ele, como mostram bem as lamentações bíblicas: Levanta-te, Senhor; levanta teu rosto e vem! (cf. Sl 4.6). Se o povo pressente a vinda de Deus, então deve preparar o caminho: “Levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória” (Sl 24.7). Experimenta-se a presença plena do Deus vindouro e então esse povo canta e dança diante dele, glorifica sua beleza.
Os dois Testamentos são testemunhas paralelas da esperança em Deus, assim como Israel e a Igreja são testemunhas da esperança no mundo. Nós vivemos no tempo do advento de Deus. A fé nos permite confiar em Deus e a esperança torna nossos sentidos despertos e alertas para o vindouro. Ele veio na carne, ele vem em Espírito e ele virá em glória.

Deus veio a nós em Jesus Cristo

A esperança cristã futura se fundamenta em uma lembrança histórica segura. Esta é a presencialização do Cristo de Deus, que veio ao nosso mundo. Ele faz de nossa vida a sua própria, transformando assim a terra num lugar de esperança. Tal fato diferencia a esperança cristã de todos os outros sonhos e temores futurísticos que ouvimos com frequência nos últimos dias.
Jesus Cristo se tornou extremamente próximo de mim quando procurei por Deus e não encontrei qualquer resposta. Assim, eu vim a crer em Deus por meio de Jesus Cristo. É por isso verdade quando digo: Sem Cristo, eu teria me tornado ateu. Pois partindo das experiências da história humana ou da contemplação da natureza, eu não teria a ideia que existe um Deus. Mais do que isto, não teria nunca pensado e crido que este Deus é amor e quer o nosso bem. Por causa de Cristo, comecei a crer em Deus. Dito de modo mais exato: Eu comecei a crer no Deus de Jesus Cristo. Este Deus que Jesus chamava de modo tão íntimo de Abba – Pai amado – e do qual anunciava aos pobres a chegada do reino. Sempre que penso em Cristo, sinto a proximidade de Deus e da vastidão de seu reino.
A primeira imagem pela qual fui achado por Cristo foi a imagem daquele que desesperançado, prisioneiro e torturado na cruz dos romanos, gritava por Deus. Eu me senti compreendido por ele como por um amigo que se torna partícipe em nosso destino. Cristo seguiu o caminho do sofrimento e do abandono para procurar pelas pessoas abandonadas e, assim, se tornar irmão delas. Isso me tocou de modo pessoal: Deus abandonou seu Cristo para que Ele viesse ao meu encontro no estado de abandono e me achasse. Descobri, assim, em seu destino, algo que ainda não tinha trabalhado em meu próprio destino. Algo de sua presença em minha própria vida.
Cristo socorre, Cristo salva. Ele não socorre, todavia, por meio de sua supremacia, mas sim, por sua solidariedade conosco em nossa impotência. “Pelas suas pisaduras, fomos sarados” é o que diz o profeta Isaías, referindo-se ao servo sofredor de Deus, o qual deverá redimir o mundo (Is 53.5).
“Somente o Deus que sofre pode socorrer” escreveu Dietrich Bonhoeffer na prisão. Deus socorre – primeiro e sempre – por meio de sua compaixão: “No mais profundo abismo, lá estás também” (Sl 139.8).

Deus veio a nós em Espírito

A esperança cristã do futuro se fundamenta na contemplação de Cristo e na experiência do Espírito vivificante. Nós não apenas relembramos a história de Cristo e esperamos pelo futuro de Deus. Nós já experimentamos também hoje “os poderes do mundo vindouro” (Hb 6.5). Essas são as “energias vitais” do Espírito Santo.
Mas quem é o Espírito Santo? O Espírito Santo é o Espírito da vida que vitaliza todas as coisas por ele tocadas. Ele é presença vital de Deus no mundo. O dom da presença deste Espírito de Deus é o que de maior e mais maravilhoso pode ser experimentado por todas as formas de vida, tanto em âmbito pessoal quanto comunitário. No Espírito Santo, não está presente um tipo qualquer de espírito entre tantos outros, mas Deus mesmo. O Deus vivo que é criador, libertador e salvador.
Onde está o Espírito, ali está Deus de modo especialmente presente. Não em uma forma de onipresença, mas na forma de automanifestação. E onde Deus se manifesta, ali Ele partilha de si mesmo. As energias criativas de sua vida eterna abundam e perpassam nossa vida mortal e a fazem, desde dentro, plenamente viva. Onde quer que sintamos o Espírito de Deus, ali nós experimentamos Deus. Como? Por meio de nossa vida vivida. Nós experimentamos a vida curada e redimida, amada e amável. Não experimentamos a vida apenas como uma nova espiritualidade do coração ou nova teologia da cabeça, mas com todos os nossos sentidos, como uma nova vitalidade da vida. Nós sentimos e degustamos, ouvimos, cheiramos e vemos nossa vida em Deus e Deus em nossa vida, assim como é dito em 1 João 1.1-2:
O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nosso próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna...).
Existem muitos nomes para este Espírito da vida porque existem variadas experiências de vida. Para mim, são os mais lindos os nomes de consolador e fonte de vida.
Na comunhão com Cristo, experimentamos as forças vitais do Espírito divino. Quem se tornou triste e sem participação em nada na vida, quem não sente mais em si qualquer vitalidade, deve se votar para o Cristo e experimentará a nova vitalidade do Espírito de Deus. A meu ver, esta constitui a nova sensualidade (referente aos sentidos) da vida e o vasto âmbito vital de Deus.
Assim como na experiência de uma grande tristeza nossos sentidos se apagam e não podemos mais ver qualquer cor, ouvir nenhum tom e perceber o paladar, parecendo mortos-vivos, assim também se abrem os nossos sentidos novamente quando respiramos o amor de Deus. Nós vemos de novo este mundo multicolorido, nós ouvimos novamente melodias, recuperamos nosso paladar e todos os sentimentos. Somos tomados por uma grande aceitação da vida, aceitação do Espírito vital divino.
Para o desenvolvimento desta nova vida, precisamos de um lugar espaçoso. ”Tu me pões num lugar espaçoso”. Este lugar espaçoso é o presente do Deus infinito, o qual cerca a nossa vida finita (Sl 139.5). A presença divina nos cerca por todos os lados. Isso nos permite desenvolver nossa vida finita para todos os lados. Nós podemos nos movimentar em Deus e Deus morar em nós. Deus não é somente uma pessoa com a qual podemos falar, mas também o espaço no qual podemos desenvolver nossas vidas. Segundo a tradição judaica, um dos nomes de Deus é Makom (espaço). Nós, seres humanos, damo-nos espaço mutuamente sempre que nos abrimos em amor e amizade mútuos e permitimos que os outros seres humanos tomem parte em nossa vida. Sem tal espaço livre na vida comunitária, não existe qualquer liberdade pessoal. O amor dá espaço e tempo para a liberdade. Onde quer que nós experimentemos este espaço livre, ai nós experimentamos a presença de Deus em nós.

Deus veio a nós em Glória

O Deus que nos foi mostrado por Cristo é o “Deus da Esperança”, como Paulo o chama em Romanos 15.13. Deus não é o eterno que está aqui, esteve aqui e aqui estará, mas o Deus que “vem” (Ap 1.4). Ele vem ao nosso encontro desde o seu futuro. Por isso é que o abrangente horizonte do futuro não é algo que se acrescente ao Cristianismo, mas seu elemento constitutivo. Crer significa viver na presença do Cristo ressuscitado e se deixar orientar pelo seu reino vindouro “assim na terra como no céu”. Nós vivemos na expectativa de sua vinda. Nós não aguardamos o seu “retorno”, mas vivemos cada dia na luz de sua vinda. Sobre nós brilha a estrela da promessa. A promessa de Deus é como a aurora que anuncia a chegada de um novo dia: o dia de Deus. “Vai alta a noite, e vem chegando o dia”, assim descreve Paulo a sensação cristã do tempo (Rm 13.12).
Que futuro pode preencher as promessas de Deus, nossas esperanças e as expectativas da terra? Deus vem para morar na terra com os seres humanos. A totalidade da criação se tornará, então, seu templo. O apocalipse descreve isto por meio da imagem da “Jerusalém divina”, a qual desce sobre a terra. Por conta dessa Schechinah de Deus, tudo precisa ser recriado e preparado. Então serão enxugadas todas as lágrimas, o sofrimento e pranto vão passar e a morte não existirá mais (Ap 21.5). Quando o divino estiver em tudo o que é terreno e tudo o que é terreno estiver em todo o divino, então a beleza divina fará todas as coisas resplandecerem. Esta é a plenificação da esperança histórica da humanidade e a consumação da criação. Em seguida, estará tudo criado como foi no princípio: a vida e a luz, as plantas e os animais e também os seres humanos.
Segundo 2 Pedro 3.12, devemos esperar e apressar o futuro de Deus. Isso soa contraditório, mas não o é. Vamos traduzi-lo em nossa experiência e em nossa língua:
Aguardar: é não se conformar às condições de injustiça e não reconhecer as forças daquilo que é factual, pois bem se sabe que alguma coisa melhor pode acontecer e algo diferente está por vir. Aguardar significa nunca se resignar, nem entregar-se a si mesmo. Poder aguardar – isto é uma arte da esperança. Paciência é a virtude da esperança. Aguardar significa viver em ansiosa atenção até a chegada da hora da consumação final. Poder aguardar é também fidelidade ao futuro prometido. “Senhor, Deus nosso, outros senhores têm tido domínio sobre nós; mas graças a ti somente é que louvamos o teu nome”, assim disse o povo de Deus prisioneiro quando do cativeiro babilônico (Is 26.13). E ele sobreviveu. Não existe nenhuma teologia da libertação sem esta teologia do cativeiro, como Rubem Alves notou bem.
Apressar: Aqui, o que se tem em mente é a superação da realidade presente e a antecipação do futuro do novo mundo de Deus, a cada passo e em cada ato nosso. Por meio de cada ato de justiça, preparamos o caminho da nova terra, onde reina a justiça. Faz-se justiça a quem sofre violência e brilha, então, o futuro de Deus em seu mundo. Engajamos-nos em favor de “órfãos e viúvas” e surge, então, um pouco mais de verdade em nosso mundo.
Conforme nós exploramos suas riquezas e forças vitais, a Terra geme com a violência e a injustiça. Ela aguarda por seu direito. Nós nos “apressamos” ao encontro do futuro de Deus quando antecipamos aquela justiça por meio da qual a “nova terra” deve surgir.
Aguardar e apressar: isto significa resistir e antecipar. Com isso, santificamos a vida e nos tornamos seres seguros do futuro de Deus. 

Fonte: Vida, esperança e justiça de Jürgen Moltmann. Editeo, 2008, pp. 12 - 17.




17.3.15

Liberdade e Segurança


A busca de dois valores, liberdade e segurança, ambos amplamente cobiçados, já que indispensáveis a uma vida digna e feliz, converge no atual discurso sobre a identidade. As duas linhas de busca notoriamente se evadem à coordenação, cada qual tende a conduzir a um ponto além daquele em que a outra busca se arrisca a ser travada, interrompida ou mesmo invertida. Embora não se possa conceber uma vida digna ou satisfatória sem uma mistura tanto de liberdade quanto de segurança, dificilmente se consegue um equilíbrio satisfatório entre esses dois valores: se as tentativas do passado, inumeráveis e invariavelmente frustradas, servem para alguma coisa, esse equilíbrio pode muito bem ser inalcançável. Um déficit na segurança repercute na angustiante incerteza (e agora fobia) de que o “excesso de liberdade” – beirando uma permissão para o “tudo é valido” – inevitavelmente será nutrido. Um déficit de liberdade, por outro lado, é vivenciado como um debilitante excesso de segurança (a que os sofredores dão o codinome de “dependência”).
O problema, porém, é que, quando falta segurança, os agentes livres são privados da confiança sem a qual dificilmente se pode exercer a liberdade. Sem uma segunda linha de trincheiras, poucas pessoas a não ser os aventureiros mais ousados têm coragem suficiente para enfrentar os riscos de um futuro desconhecido e incerto. Sem uma rede segura, a maioria se recusará a dançar na corda bamba e se sentirá profundamente infeliz se forçada a fazê-lo contra a vontade.
Quando, por outro lado, o que falta é a liberdade, a segurança parece escravidão ou prisão. Pior ainda, quando se é submetido a essa situação por muito tempo sem intervalo e sem ter experimentado um outro modo de ser, mesmo a prisão pode sufocar o desejo de liberdade, assim como a capacidade de praticá-la, e então se transformar no único hábitat aparentemente natural e habitável – não sendo mais percebida como opressiva. [...]
Qualquer aumento na liberdade pode ser traduzido como um decréscimo na segurança e vice-versa. As duas leituras se justificam, e qual delas se move para o centro da preocupação pública num determinado momento depende de outros fatores além dos elegantes argumentos apresentados para justificar a escolha. Mas as chances de um apoio à mudança no equilíbrio entre liberdade e segurança seriam maiores se a própria escolha fosse um exercício de liberdade. A abertura de perspectivas que um aumento da liberdade poderia trazer dificilmente seria visto como um bom negócio se esse acréscimo resultasse da falta de liberdade – se fosse imposto ou implementado sem consulta. Numerosos resultados de pesquisa confirmam a regra: quando as pessoas se ressentem de mudanças em suas condições de existência ou nas regras do jogo da vida, isso ocorre muito menos pelo desagrado em relação às novas realidades resultantes da mudança do que pela maneira como estas foram produzidas, ou seja, porque foram colocadas em pauta sem que se consultassem as pessoas.                            
Fonte: Livro Vida Líquida do sociólogo Zygmunt Bauman, publicado em 2005, pela editora Jorge Zahar.

5.6.14

CEB: Significante início, triste fim.

                                                                                                            por Vinicius Braga   

   Na década de 1930, o protestantismo brasileiro estava envolvido apenas consigo mesmo. Com caráter somente de combate ao catolicismo, colocava a conversão como um novo modo de vida que excluía a vivência em si de qualquer tipo de expressão cultural do próprio Brasil. Em um país extremamente carente de ser acompanhado em suas transformações sociais, a maioria dos evangélicos revelavam-se indesejosos de acompanha-lo, e assim não demonstravam interesse em suprir as demandas socioculturais emergentes na qual eles também estavam inseridos.

   Mas, na contramão de uma forma de protestantismo banhado pelo individualismo, incutido no brasileiro por estrangeiros colonizadores, e ao denominacionalismo e isolamento evangélico, surge, em 1934, a CEB (Confederação Evangélica do Brasil). Seu primeiro secretário foi Epaminondas Melo Amaral, seguidor dos ideais de Erasmo Braga, e composta inicialmente por cinco igrejas, Congregacional, Presbiteriana do Brasil, Presbiteriana Independente, Episcopal e Metodista, mas que recebeu maior força, em 1959, pela filiação da Igreja Luterana.

   Seguindo os passos de uma América Latina altamente influenciada pela Conferência Missionária do Panamá de 1916, a CEB se formou com o papel de representar o segmento evangélico e formar um órgão cooperativo em vista da construção de uma nova identidade evangélica nacional, bem como a formulação de projetos cooperativos e não mais individualistas.

   Após a Segunda Guerra Mundial, o país inicia um grande crescimento urbano e é movimentados por ideais socialistas, principalmente pela juventude brasileira. Então, as igrejas são envolvidas por esse clima e começam a falar sobre responsabilidade social e a estudar seus reflexos na transformação da sociedade. Assim, a CEB cria vários órgãos importantes. Um deles, o Setor de Responsabilidade Social da Igreja ganha muita importância por se colocar à suprir uma necessidade atual da população colocando a igreja atuando fora de suas paredes.

   Apesar da CEB trabalhar com seriedade, representatividade e pensamento inovador, note-se seu auge na Conferência do Nordeste de 1962, que possuía até mesmo conferencistas não cristãos, ela teve seu fim trágico na ditadura militar. Muitas igrejas que estavam fora da CEB, através de suas cúpulas movidas por uma reação negativa à toda a renovação teológica e pastoral promovidas pela confederação, e com apoio do Golpe Militar de 1964, reassumiram o controle eclesiástico no país através de perseguições aos departamentos da CEB, à professores e alunos dos seminários teológicos e às organizações de juventude. A CEB encerra assim sua real e significativa atuação no Brasil através de “irmãos” colocando seus próprios irmãos na cadeia.


   Fontes:


CUNHA, Magali do Nascimento. Religião e Cultura no Brasil: a Confederação Evangélica, a Conferência do Nordeste. p. 41 – 61

http://alexfajardo.wordpress.com/tag/confederacao-evangelica-brasileira/
http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/323/mais-uma-tentativa-de-unidade-evangelica-brasileira-vale-a-pena

26.5.14

Comemore dia 12!

                                                                                         A seleção brasileira de futebol, estreia no maior de todos os torneios que será realizado no Brasil, exatamente no dia que os brasileiros comemoram o dia dos namorados. Doze de junho.





Há uma campanha nos meios de mídia, sugestionando quase ordenando que você comemore um dia antes, ou seja, dia onze.

Qual será a real motivação desta iniciativa/campanha? Permitir aos apaixonados por futebol curtir tranquilamente o jogo inaugural da copa, sem magoar a pessoa amada? Ou, não perder os lucros que advém da celebração do dia dos namorados?

Aposto na segunda opção.

Homens, apaixonados por sua esposa e pelo futebol, perdoe a minha intromissão nas suas paixões, pois lhe aconselho a comemorar o dia dos namorados, no dia doze! E se ela desejar na hora do jogo. A possibilidade de conseguir um local tranquilo para um pouco de romance será bem maior!

Pense. Você é racional.

Você perderá o jogo, tudo bem eu sei você já entendeu, porém ganhará mais carinho, admiração, cumplicidade e outras coisas mais da sua esposa!

            E além do mais, as defesas, os melhores momentos, os gols, serão reprisados a exaustão. A bola está com você!

13.2.14

Como os evangélicos são percebidos!

Eles Gostam de Jesus, Mas não da Igreja[1] do americano Dan Kimball, foi publicado nos E.U.A. em 2007, aqui no Brasil a editora Vida lançou o livro em setembro de 2011.
Kimball, fala, olha e percebe a religiosidade a partir de dentro, ele é um evangelical, conservador, pastor de uma igreja na cidade universitária de Santa Cruz na Califórnia. Conforme as suas palavras: “minhas convicções são fundamentalistas e [...] interpreto a Bíblia literalmente” (KIMBALL, 2011, p. 188).
Apesar de em seu livro conter afirmações como: “Erramos o alvo quando não fazemos parte de sua igreja” (KIMBALL, 2011, p. 57), ou “eu sei não é possível experimentar o corpo de Cristo no isolamento e que abandonar a igreja não é a resposta. Precisamos fazer parte de um corpo local” (KIMBALL, 2011, p. 224), e ainda “precisamos explicar para aqueles que gostam de Jesus, mas não da igreja, que Jesus ama a igreja e que, se eles verdadeiramente gostam de Jesus, é inevitável que também gostem da igreja, pois ela é a sua noiva. As pessoas precisam da igreja porque ela é a expressão de Jesus como seu corpo (KIMBALL, 2011, p. 252). Porém sua abordagem é distinta daqueles que acreditam que apenas afirmando e reafirmando que a igreja é importante e necessária, irão convencer as pessoas a pertencerem[2].
O livro aqui analisado é o resultado do esforço deste autor, por tentar olhar as igrejas evangélicas a partir dos olhos dos americanos, que não pertencem a ela. Qual a metodologia que foi empregada? Kimball a define assim:

Encontrei a maioria das pessoas que vou citar após ter fugido de meu gabinete na igreja. E não me dispus a fazer proselitismo com elas: simplesmente as encontrei para fazer amizade, desfrutar de sua companhia e pedir suas opiniões. [...] Passei longos períodos ao lado de cada uma delas, fazendo perguntas, ouvindo suas histórias e prestando atenção a sua opiniões. (KIMBALL, 2011, p. 60).

Os entrevistados estão na faixa etária dos vinte ou dos trinta anos. Algumas pessoas foram criadas na igreja e outras nunca tiveram uma relação direta com igrejas evangélicas. O que é comum a todas é o fato de não participar, nem frequentar uma igreja quando das entrevistas, porém elas gostam de Jesus. O autor não informa quantas pessoas entrevistou, mas, há citações de pelos menos doze pessoas diferentes ao longo do texto (KIMBALL, 2011, pp. 60, 61).
Kimball só vai ao encontro destas pessoas, porque antes ele construiu algumas convicções, que não é comum que os evangélicos tenham, são elas:
  • ·       O mundo mudou: “Em uma cultura cada vez mais pós-cristã, as influências e os valores que dão forma às gerações emergentes[3] já não se alinham com o cristianismo. As gerações emergentes não tem uma compreensão básica da história da Bíblia e não vislumbram um Deus como o Deus predominante a ser cultuado” (KIMBALL, 2011, p. 13).
  • ·         A percepção que os americanos possuem dos cristãos é: “covardes, inflamados, intolerantes, acusadores, pertencentes à direita e com interesses políticos próprios” (KIMBALL, 2011, p. 30).
  • ·         Os evangélicos vivem dentro de uma bolha cristã. Estão sempre atarefados com atividades da igreja. Consomem seus próprios produtos como livros, roupas, adesivos, congressos, dentre outras coisa (tão consumistas como qualquer outra pessoa). Constroem relações de amizades, somente com outros evangélicos (KIMBALL, 2011, pp.11, 38 - 40).
  • ·         As pessoas gostam de Jesus, apesar de não frequentarem uma igreja evangélica (KIMBALL, 2011, pp. 48 – 58).
Através do contato com os jovens, não evangélicos, o autor admite que no mínimo seis críticas destes jovens devam ser levadas em consideração, são elas: 
1) A igreja é uma religião organizada com interesses políticos próprios. 
2) A igreja é intolerante e negativista. 
3) A igreja é dominada pelos homens e oprime as mulheres. 
4) A igreja é homofóbica. 
5) A igreja é arrogante ao afirmar que todas as outras religiões estão erradas. 
6) A igreja está cheia de fundamentalistas que levam a Bíblia ao pé da letra.
Em cada um(a) destes(as) pensamentos/críticas dos não evangélicos, Kimball admite o porque eles pensam desta maneira e em seguida apresenta uma defesa e um modo de explicar o modo de ser da igreja.
A preocupação e a abordagem, que Kimball realiza é missiológica. Ele realmente está convicto da necessidade de se escutar os não cristãos e que “em alguns casos precisaremos desculpar-nos com as pessoas por como a igreja tem agido” (KIMBALL, 2011, p. 68). 
Por ser missiológica admiti-se que “as coisas mudaram, e precisamos pensar da perspectiva das gerações emergentes se quisermos compreendê-las e comunicar-nos com elas” (KIMBALL, 2011, p. 149). Ou seja, para comunicar é preciso sair da bolha e primeiramente ouvir, aprender, pedir desculpas, se relacionar e depois se for possível falar.




[1] Para Kimball, igreja é igual ao campo religioso evangélico, portanto durante a análise de seu livro, está será a utilização do termo.
[2] Exemplos desta abordagem são os livros: Dê Outra Chance à Igreja de Todd Hunter, Os Sem-Igreja de Nelson Bom Milcar, Igreja. Acabou? de Israel Belo de Azevedo dentre outros.
[3] O que o autor chama de emergentes, também pode estar fazendo referência a contemporâneos ou pós-modernos.

28.11.12

O ambiente humano

por Marina Silva


O Brasil passou a última semana de janeiro vendo escombros em reportagens televisivas sobre o resgate das vítimas do desabamento dos três prédios no centro da cidade do Rio de Janeiro. Além de sofrermos com as famílias e torcermos por um final feliz para cada espera, perguntamos, em escala nacional, qual seria a causa da tragédia. Aos poucos a causa foi ficando clara, pois nenhum fenômeno natural estava em sua raiz. Não foi desabamento por chuvas nem movimento de terras subterrâneas. O colapso da estrutura de um dos prédios, provocado por falha humana, era a explicação.

No mesmo período vimos outras imagens de escombros. Dessa vez, nas notícias sobre a ação do governo do estado de São Paulo na desocupação de áreas pertencentes à massa falida da empresa do Grupo Naji Nahas, em Pinheirinho, São José dos Campos. Seis mil pessoas foram desalojadas pela polícia. Máquinas destruíram casas sem que seus moradores pudessem retirar delas um garfo sequer, deixando atrás de si destruição, desolamento, pedaços estraçalhados de bens. De novo a causa não foi ventania, furacão ou outra razão natural, mas a atuação de instituições oficiais.
De tais escombros se eleva uma mensagem, uma reflexão. O Salmo 115.16 diz que Deus nos deu este planeta. No-lo deu pleno de vida (Gn 1.22) e de recursos para satisfazer nossas necessidades (Gn 1.29-30) e encarregou-nos de cuidar dele (Gn 2.15). Fez-nos corpo e espírito (Gn 2.7), portanto, com capacidade criativa, que nos permite criar sobre e com a criação. Assim, temos no planeta o ambiente natural e aquele que brotou dos artifícios humanos. Estes os cientistas chamam de cultura material. Quanto a eles, temos a seguinte recomendação: “Quando edificares uma casa nova, farás um parapeito, no eirado, para que não ponhas culpa de sangue na tua casa, se alguém de algum modo cair dela” (Dt 22.8).
Os primeiros escombros revelam nosso pouco cuidado com o ambiente que produzimos, com as normas técnicas, com a segurança, com a durabilidade do que fazemos. Os segundos, denunciam o pouco cuidado com as pessoas, com seus direitos, com sua felicidade. Falhamos na ética do cuidado na criação de nosso ambiente humano.
Foi um mau começo para o país que vai sediar no Rio de Janeiro, entre 13 e 24 de junho de 2012, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, apelidada de “Rio + 20”. Esse será um grande evento para se falar sobre o cuidado com o planeta, com os recursos naturais e com as pessoas, e para o qual se espera a participação do governo de mais de 100 países, além de membros da sociedade civil. Serão debatidos temas ambientais, como segurança climática, segurança energética, biodiversidade, cidades, água e oceanos. E também temas de natureza técnico-econômica, tais como desenvolvimento sustentável, produção e consumo sustentável, inovação tecnológica para sustentabilidade. O cuidado com as pessoas será expresso em temas como, segurança alimentar, migrações, trabalho decente e erradicação da pobreza.
A ONU se move por valores da civilização humana, por princípios erigidos na convivência laica. Qual não será a responsabilidade dos cristãos, que têm como guia a Bíblia, na qual passagens inteiras nos admoestam e educam quanto ao cuidado? Tomemos esta como exemplo: “Acaso não vos basta pastar os bons pastos, senão que pisais o resto de vossos pastos aos vossos pés? E não vos basta beber as águas claras, senão que sujais o resto com os vossos pés?” (Ez 34.18).
Marina Silva • é professora de história e ex-senadora pelo PV-AC.


Fonte: Revista Ultimato Março-Abril de 2012.

Crise civilizatória


por Marina Silva
 
Estive em Lisboa em outubro de 2011, a convite da Fundação Calouste Gulbenkian, para participar do ciclo de palestras chamado “Ambiente. Por que ler os clássicos?”. Coube-me comentar o texto “Nosso futuro comum”, também chamado Relatório Brundtland, encomendado pela ONU à ex-primeira ministra da Noruega, Gro Brundtland, em 1984. O estudo, concluído em 1987, inspirou vários desdobramentos na governança ambiental global, além de eventos como a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que conhecemos também como Cúpula da Terra ou Rio 92.
 
Passados 24 anos, e às vésperas da Conferência Rio + 20, que será realizada em junho de 2012, vejo, com certa tristeza, que foram muitos os descaminhos. Os alertas e as recomendações feitos no relatório tiveram efeitos, mas não suficientes para que, na primeira década do século seguinte à publicação, estivéssemos em situação menos complicada.
 
Temos um mundo convulso em crises superpostas e uma avaliação equivocada na hierarquização dessas crises. A crise econômica arrasta o sistema financeiro mundial para o colapso. A crise social nos exibe rostos magros de 2 bilhões de pessoas com fome. A crise política, nascida do descolamento entre a representação democrática dos povos e a atuação parlamentar de características corporativistas, denuncia que valores e significados estão sendo perigosamente postos de lado na condução dos interesses públicos. E a crise ambiental, resultante de um modelo de desenvolvimento em que o crescimento econômico não quer ter limites e espolia a base natural de todos os ecossistemas da terra, pode levar à esterilização do planeta pelo aquecimento climático a uma temperatura incompatível com a existência da vida.
 
A humanidade se dedica alegremente ao consumismo, às preocupações de curto prazo, sem pensar nas condições que as futuras gerações terão para viver. 
 
Isso nos leva a identificar outra crise: a da utopia, do sonho de solidariedade, de fraternidade, do planeta pleno de vida. Em Gênesis 1.22 o ato criativo de Deus significa um planeta cheio de vida na terra, nas águas e no ar, com plantas e animais, pássaros e peixes, e o ser humano por fiel guardião de tudo isso. No ano de 2012 da era cristã, essa vida está também ameaçada em todos os quadrantes da terra. Nossos processos institucionais e políticos não zelam pela democracia. Nossos processos produtivos desconhecem a inteligência da engenharia sistêmica de Deus e exploram os bens materiais do planeta até seu esgotamento, gerando poluição e outras disfuncionalidades nos ecossistemas. O fruto do trabalho de nossas mãos no campo visa o lucro, é mal distribuído e não chega às bocas famintas nos países pobres. Nossa infraestrutura cara e mal planejada é ambientalmente inadequada, além de injustiçar os povos que sofrem os impactos sem ter os benefícios. Nosso gigantesco sistema financeiro privatiza os lucros, mas impõe à humanidade os prejuízos de suas operações, resultando em perda de milhões de empregos.
 
As múltiplas crises que constituem a crise civilizatória que vivenciamos exigem de homens e mulheres sentido de urgência e mobilização para o imperativo ético da mudança de atitude que precisaremos ter face à destruição da vida abundante com que Deus agraciou o planeta. Para isso é importante propiciar o necessário encontro entre política e ética, economia e ecologia e, para os que creem no propósito restaurador da obra de Deus, do homem com Deus, consigo mesmo, com os outros homens e com a criação.
 
• Marina Silva é professora de história e ex-senadora pelo PV-AC.

Fonte: Revista Ultimato Janeiro-Fevereiro 2012.

16.4.12

Como organizar o sermão textual


O primeiro passo para preparar um sermão a partir de um versículo da Bíblia é definir a idéia central do texto, mesmo por que alguns textos podem fornecer mais de um tema diferente. Tendo a idéia central, o passo seguinte é definir a seqüência das divisões principais, que podem vir na ordem em que aparecem no texto ou em outra que o pregador achar conveniente, sempre dirigindo para o clímax do sermão. Vejamos algumas maneiras diferentes de construir um sermão textual.

Ordem simples conforme o texto
Idéia Central: Cristo é tudo para o crente (Jo 14,6)
A.    Cristo é o caminho para o céu
B.     Cristo é a verdade que orienta
C.     Cristo é a vida que salva

Troca da ordem para atingir um clímax
Idéia Central: O propósito dos dons (Ef 4. 11 – 12)
A.    Propósito individual: aperfeiçoar os santos
B.     Propósito coletivo: edificar a igreja
C.     Propósito missionário: servir a Deus

Classificação das idéias atribuindo um enfoque a cada uma
Idéia Central: O dever do cristão (Mq 6.8)
A.    Para consigo: justiça
B.     Para com os outros: misericórdia
C.     Para com Deus: humildade

Exploração de causa e efeito
Idéia Central: a missão do salvador (Lc 19.10)
A.    Veio ao mundo
B.     Buscou o perdido
C.     Salvou os que crêem

Exploração de contrastes e comparações
Idéia Central: Os critérios de Jesus (Lc 5.32)
A.    Os Justos rejeitados por Jesus
B.     Os pecadores convidados  por Jesus
C.     Os arrependidos transformados por Jesus

[Fonte: Texto extraído na integra de A arte de pregar, Robson M. Marinho, Edições Vida Nova, paginas 198 e 199.